O humorista que fez o país chorar

Jornalista Guilherme Fiuza mostra o homem por trás das piadas e dos figurinos infames do personagem Bussunda

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

Quarenta e seis reprovações ao longo da vida universitária. Seis anos de curso sem conseguir se formar. Dois períodos sem passar em matéria alguma. Quem diria que um estudante com esse histórico daria em alguma coisa na vida? Bussunda (1962-2006), o dono do currículo vergonhoso - para qualquer um, mas não para ele, que com essas credenciais venceu o 1.º Concurso de Pior aluno da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio -, não só deu certo, como virou ídolo nacional. Virou também livro, Bussunda - A Vida do Casseta (Objetiva).

Na noite do lançamento, em maio, quem recebia era o autor, o jornalista Guilherme Fiuza, e a também jornalista Angélica Nascimento, viúva de Bussunda, companhia desde os dias de notas zero na universidade, em que ele pedia esmolas em ônibus fingindo-se de cego e deficiente mental, entre outras muitas bizarrices que faziam parte de seu cotidiano então. Ela levou a filha do casal, Júlia, de 16 anos. Para a menina, a leitura possibilitou descobrir novas facetas do pai do qual sempre se orgulhou.

Discreta, nesses quatro anos desde a perda do marido Angélica preferiu escapar de entrevistas. Contactada por Fiuza por conta da biografia, pensou: "Será que as pessoas vão querer saber dessa história?" Logo entendeu que aquela era uma trajetória que merecia ser contada, e do início ao fim. Das badernas no lar judaico e comunista, de mãe psicanalista e pai cirurgião, a adolescência "sem vocações, sem interesses", a pindaíba pós-universidade, em que ele e Claudio Manoel se encostaram no apartamento de Beto Silva, chegando à consagração como "a cara da nova cara do humor brasileiro", contratado pela TV Globo no fim dos anos 80 para preencher o vazio deixado por Jô Soares ao ir para o SBT.

"Bussunda merece muito mais", diz Angélica, que ainda mistura os tempos verbais quando fala dele. "Eu fiquei muito impressionada de ver a comoção quando ele morreu, foi uma coisa que afetou as pessoas. Não tinha essa noção, nem ele tinha." Há um mês nas lojas, o livro está na lista dos mais vendidos - sinal de que, sim, quem ria de Marrentinho e Ronaldo Fofômeno quer conhecer o homem despido dos figurinos infames.

Dias depois da noite de autógrafos, Angélica topou receber a reportagem do Estado na cobertura em que vive, entre o Leblon e a Lagoa, colada à grande paixão de seu morador ilustre: o Flamengo. Lá também havia recebido várias vezes Fiuza. Admirador dos "sete rapazes de Liverpool" desde os tempos do Planeta Diário, jornal humorístico de Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva, e da revista Casseta Popular, de Bussunda, Beto Silva, Claudio Manoel, Hélio de la Peña e Marcelo Madureira, o jornalista (autor do best seller Meu Nome Não É Johnny) se reunira com a família e os amigos oito meses depois da trágica morte, durante a Copa da Alemanha, de ataque cardíaco. Ninguém tinha condição de falar sobre Bussunda sem chorar.

Dois anos depois, retomou o projeto. Ouviu mais de 50 pessoas. Conta que ninguém, nem a viúva, os cassetas, nem os colegas de molecagens, demonstrou qualquer melindre para falar de Bussunda, fosse sobre o fato de ele fumar maconha (que não considerava droga) ou o péssimo desempenho como aluno (matava o curso de inglês para ficar dormindo num banco da praia de Copacabana). "Com o grupo foi uma experiência muito interessante. Eu disse que queria contar a minha história do Bussunda, sem que eles me dirigissem, vetassem. Tive sorte, todos foram muito abertos", conta Fiuza.

Estão lá os nomes de quem, na Globo, os apoiou desde o início (Boni, Daniel Filho), e de quem duvidava que um programa com "sete homens feios e desconhecidos", que faziam uma série de grosserias no ar, fosse dar certo (Guel Arraes, Chico Anysio).

Estão lá os derradeiros lances na Alemanha: Bussunda brigando com Marcelo Madureira por achar que as críticas à seleção brasileira estavam pesadas, o que lhes dificultava o acesso aos jogadores - a última frase de Madureira ao amigo foi "Vai tomar no c.!" -; Claudio Manoel alertando, depois de um problema de saúde na equipe, que qualquer outro devia ser relatado, ao que Bussunda respondeu: "Tá maluco? (...) Tu vai perder uma Copa do Mundo porque torceu um tornozelo? (...) De mim ninguém vai saber p... nenhuma." No dia 16 de junho de 2006, mesmo se sentindo mal (havia exagerado na comida e jogado uma pelada puxada), ele preferiu não procurar um médico. "Esses caras vão me trancar num hospital", comentou, depois da partida fatídica, numa véspera de jogo do Brasil, com Claudio Manoel.

Para o público, que por 15 anos viu o dentuço barrigudo dizer absurdos na TV, é difícil imaginar Cláudio Besserman Vianna como o sujeito tranquilão, conciliador, doce, carinhoso e com um senso de justiça e ética fora do usual descrito pelos que o conheceram bem. "No grupo, era quem via todos os lados da situação. Quando eles brigam, parece que o grupo está acabando. Bussunda era quem colocava a bola no chão", aponta Angélica, que já foi produtora dos cassetas.

Preparando-se para a primeira Copa, em mais de 20 anos, sem a presença de Bussunda, que era obcecado por futebol a ponto de fichar, depois de assistir, todos os jogos do Brasileirão, com direito a notas para cada jogador, ela não parece entusiasmada. "É óbvio que não tenho a mesma animação, eu sinto muita falta dele. A Copa mexe comigo", diz. "Bussunda era uma pessoa confortável, era como se você estivesse chegando em casa." Desta vez, os cassetas não estarão no Mundial - foram vetados pelo mal-humorado Dunga. Sem Bussunda, provavelmente a viagem não teria a mesma graça mesmo.

O frasista

BUSSUNDA

HUMORISTA

"A piada tá errada. O Lula pode ser ignorante, mas a piada tá chamando ele de burro. E burro ele não é."

(Discutindo com os cassetas sobre uma piada que iria ao ar no programa da Globo.)

"Nós somos irresponsáveis. Mas não somos loucos."

(Numa entrevista, quando lhe perguntaram se eles fariam sátira da morte de Roberto Marinho, diretor-presidente das Organizações Globo.)

"O sistema funciona para formar um tipo de pessoa que eu não sou"

(Numa entrevista, se autoanalisando).

"- Qual foi o lugar mais estranho em que você fez amor?"

"- São Paulo."

(Numa entrevista.)

BUSSUNDA - A VIDA DO CASSETA

Autor: Guilherme Fiuza. Editora: Objetiva (405 páginas). Preço: R$ 49,90.

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