O humor amargo de uma quase extinta noite paulistana

ANÁLISE: Mauro Dias

MAURO DIAS É JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2013 | 02h08

Há exatos dez anos chegava ao mercado uma caixa com quatro CDs intitulada Acerto de Contas. Trazia 52 músicas de Paulo Vanzolini, interpretadas e arranjadas por grandes nomes da canção paulistana - Eduardo Gudin, João Macacão, Ana Bernardo, Maria Marta, Carlinhos Vergueiro, Trovadores Urbanos, Márcia, Ítalo Perón - os irmãos Buarque de Holanda - Chico, Cristina, Ana, Miúcha -, mais Elton Medeiros, Martinho da Vila, Paulinho da Viola e outros de semelhante respeitabilidade.

O acerto de contas do título fazia e faz sentido por trazer ao pódio, finalmente, de uma só tacada, depois de uma carreira de ultrapassado meio século, parte bem significativa de uma obra tão rica e poderosa quanto pouco sabida. Vanzolini parecia (e se ressentia disso) resumir-se a autor de Ronda (de que nem gostava tanto) e Volta por Cima. Certo, são seus dois maiores sucessos. E representam, musical e poeticamente, a visão que o compositor tinha da cidade, seus amores e mazelas. Mas só pinceladas num mural mais vasto e complexo.

Com perfis de gente que não sabe pra que serve tanta paz (Mulher Que Não Dá Samba), gente esperançosa de que a mentira muitas vezes repetida vire verdade (Mente, com Eduardo Gudin) e que acha barato ter perdido 25 pratas para o ladrão que, ao roubar sua carteira na Praça Clóvis, levou também o atormentador retrato da mulher amada. Personagens embrulhados num humor amargo (não confundir com ressentido) muito característico de uma enfumaçada e praticamente extinta noite paulistana.

A obra de Vanzolini funciona em díptico espelhado com a de outro fundador da música urbana da cidade, Adoniram Barbosa. Descendentes ambos de italianos, eram quase opostos. Adoniram fazia festa com a mesma marmita pobre em que Vanzolini via os sinais da tragédia. Aliás, Adoniram chora o retrato perdido da Iracema que também o atormentava, mas sem a qual não sabia viver. Pois é assim: a cidade de um não existe sem a cidade do outro. Espelhados, eles estabeleceram o foco da imagem cantada.

Vanzolini foi exemplo raro de bem sucedido híbrido de personagem e cantor de sua paisagem. E vivia entre polos - um rabugento de coração doce e sem papas na língua, um fascinante contador de casos que muitas vezes preferia o silêncio, um observador atentíssimo por momentos parecendo alheio. Boêmio e cientista rigoroso, era um pesquisador minucioso da cultura popular (a ele devemos a redescoberta do Cuitelinho, para citar o exemplo mais notório) e tinha pena não de morrer, pois pena vai ter quem fica (Quando Eu For, Eu Vou Sem Pena). Verdade, insofismável verdade.

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