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O humano e o divino

Quando eu já me preparava para sair do mundo diáfano e transcendente, o orante cometeu sonoríssimo flato

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2019 | 02h00

Se sua religião não permite o riso, recomendo evitar esta crônica. Descrevo caso verídico e, quase sempre, a realidade é ofensiva para gente pudica. Siga por sua conta e risco. Perante todos os tribunais, posso garantir: tudo é expressão fiel dos fatos. Fora a tentativa de redação mais retórica, estamos diante da verdade.

Eu estava dando curso em uma pós-graduação no Sul. A instituição é católica e dispõe de uma capela no câmpus. Estudioso de arte religiosa e admirador de arquitetura sacra, dediquei o intervalo do almoço para conhecer o espaço.

A solução do espaço é de rara felicidade. Nem repetia algum neogótico estranho nem se aventurava em uma modernidade além do plausível. O espaço fora concebido em forma de tenda com um belíssimo mosaico junto ao altar. Vitrais modernos, claridade, luz e nosso olhar dirigido com habilidade para um vórtice ao alto. Tudo me agradou no ambiente cercado de verde. Fiquei ali por quase uma hora decifrando as imagens e lendo sobre o projeto na internet. O frio intenso da rua não chegava ao interior. Era um espaço silencioso e que convidava à reflexão.

Minha descoberta parecia ter outros adeptos. Jovens universitários entravam, persignavam-se, faziam genuflexões variadas (os códigos católicos têm menor padronização do que outros credos) e passavam alguns minutos imersos em oração.

Havia um suave entra e sai da sacra e silenciosa atmosfera. Um rapaz chamou minha atenção, pois entrou e ficou alguns metros a minha frente. Ajoelhou-se no chão de pedra fria e lá se quedou, extático. Era um asceta moderno, um penitente talvez, certamente um ser sem artrite ou problemas nas articulações. A “graça supõe a natureza”, dizia o grande Tomás de Aquino, outro afeito a ambientes universitários e piedade. Já tendo tomado notas para uma futura escrita sobre arte sacra, eu apenas admirava a capacidade daquele fiel em permanecer tanto tempo com as patelas (as antigas rótulas) pespegadas à dura pedra. 

Como diria um sábio confessor na minha juventude, “o inimigo é ardiloso”. Quando eu já me preparava para sair do mundo diáfano e transcendente, o orante cometeu sonoríssimo flato. Foram sons prolongados e com variações de timbre e intensidade quase musicais, seguido de repiques menores à guisa de contratema aos estampidos iniciais. A duração foi inacreditável, e, graças à acústica do lugar, de efeito redobrado. Aquele som tão humano, seguido de acre e sulfúrica exalação pestilenta, surpreendeu-me muito. Era algo que não combinava com a cena, ou, usando o verbo que aprendi em São Paulo, não “ornava”.

E o autor do “atentado”? Como ele reagiu à, digamos, “involuntária” confissão de humanidade? Nada parecia denunciar que aquela alma se perturbara com a interferência do corpo. Talvez sua mente flanasse entre coros de querubins, indiferente aos males da Terra, inclusive aos danos causados. Nenhuma reação, abismada leitora e estupefato leitor. Nada! Ele continuava de joelhos, mãos postas em oração e olhos cerrados. Nem sequer um discreto risinho, uma tosse ou um rubor, tão comum em autores dessas infrações, denunciaria ser ele o réu incontestável do delito de lesa-sociabilidade. Estivesse lotado o ambiente e nunca se diria que partiu daquele místico tão pútrida emanação. 

Saí às gargalhadas e rindo segui para a sala. Contei o caso a um amigo que levantou hipótese inaudita. E se a graça pedida com tal fervor tivesse sido, exatamente, essa? E se o foco da dedicação mística tivesse relação com o incômodo de um intestino preso e, tendo demonstrado a capacidade de sacrifício corporal, ele tivesse obtido aquilo que anelava? Não imaginaria tal dado, porém, se fosse verdade, eu teria presenciado uma ação direta do divino, ou, se preferirem, um milagre. O que meu olhar incrédulo supunha ser uma profanação, poderia ser o atendimento de um sincero e justo desejo. Supus delito, poderia ser prece ouvida. 

Nunca saberei se eu estive diante de alguém com incontinência gasosa ou uma pessoa agraciada por forças superiores. A capela continua lá, linda na sua singeleza. Alunos e professores passam rapidamente pelo local. Somente eu, aquele devoto e Deus fomos testemunhas do ocorrido. Sendo cético, em um processo de canonização futuro, meu depoimento teria um valor enorme. Como o poeta Gonçalves Dias, “Meninos, eu vi”. Aliás, vi, ouvi, cheirei, fugi e ri. 

O humano se insinua em tudo. Na Teologia, o plano de Deus tece urdiduras complexas com a percepção dos homens. Sob “a espécie da eternidade”, o que presenciei foi um sopro passageiro, com o caráter duvidoso da expressão para o caso. A religião é maior do que um cronista irônico ou até do que um orante flatulento. A piedade sempre superou as falhas individuais. Seria o caso de evitar o cacófato e deplorar “fé demais”? Deveríamos recriminar o rapaz pela conduta inadequada no local? Melhor perdoar com misericórdia o caráter humano que, afinal, nos irmana e iguala. Ainda que nem sempre em locais sagrados, todos já imitaram o devoto. É preciso manter a esperança e, provavelmente, um pouco de humor. 

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