Merrick Morton/Divulgação
Merrick Morton/Divulgação

O horrendo culto da vaidade no Facebook

A Rede Social comprova que estamos diante de uma mutação antropológica

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

A traumática substituição da cultura humanista pela tecnológica provocou uma espécie de neurose afásica entre os jovens. No caso do americano Mark Zuckerberg, fundador do site Facebook há seis anos, essa afasia deixou marcas visíveis em seu inexpressivo rosto. Em outras palavras: mesmo quem conhece Zuckerberg pessoalmente, diria que ele se parece mais com o ator do filme A Rede Social do que com ele mesmo. Jesse Eisenberg, o Zuckerberg do filme de David Fincher, interpreta o novo magnata da internet como um cidadão Kane autista, um isolado portador da síndrome de Asperger, incapaz de se comover com a dor alheia. E pior: irresponsável demais para ser confiável, o que é duplamente perigoso em se tratando de um hacker sem escrúpulos e familiarizado com a ordenação de algoritmos, a confiar no filme de Fincher.

Hoje empenhado em ser o mensageiro oficial do mundo, o Mercúrio do cyberspace, ele está prestes a lançar um correio eletrônico, após o sucesso do Facebook Messages, seu serviço de mensagens da rede conectado a celulares. Zuckerberg tem no cadastro de seu Facebook mais de meio bilhão de usuários, o equivalente a quase um terço da população da China. Quando a notícia se espalhou, no mês passado, centenas de usuários da internet se manifestaram contra o novo email do Facebook. Muitos apontaram como principal risco o de ter sua correspondência pessoal violada e a privacidade exposta por um homem que, segundo o filme de Fincher, roubou dos colegas de Harvard a ideia de seu website e expôs ao vexame digital a própria namorada. Imagine agora seus dados pessoais e suas preferências - sexuais, partidárias, religiosas - caindo nas mãos de hackers. Ou de Zuckerberg. Ou de anunciantes. Pior: tente imaginar o que fariam com essas informações regimes totalitários e terroristas.

Fincher, em A Rede Social, retrata Zuckerberg como um hacker megalomaníaco e socialmente inadaptado. O efeito residual dessa crítica é ainda mais duro que o de testemunhar o ressentimento de um inseguro gênio da informática e seu desprezo por todos os que considera "inferiores" - como os advogados de seus amigos, lesados no processo de construção do site. Deixa-se o cinema com a sensação de que se viu um filme de terror. Não é preciso ter lido Marcuse para saber que o sistema assimila tudo, acabando por integrar toda a diversidade, de um jeito ou de outro. A internet é isso, um saco de gatos cheio de ratazanas autodestrutivas, loucas para serem devoradas. Ferramentas sociais como o Facebook lidam com a ingenuidade narcísica de jovens que gastam, no mínimo, 19 minutos por dia para se comunicar com "amigos" dos quais não sabem absolutamente nada. Fincher retrata Zuckerberg como o gato maluco que vai devorar esses ratos, caídos na cilada virtual de uma rede que cria usuários dependentes. Eles "postam" uma inocente revelação pessoal no Facebook e em poucos minutos todos estão dando palpite na vida do infeliz. Uma promíscua cyberfavela, enfim.

No filme, o primeiro exemplo das consequências na vida real do delírio digital de Zuckerberg é o bullying promovido pelo jogo que deu origem ao Facebook. Nele, o hacker rouba dados de várias fontes, faz downloads de fotos e em poucas horas, usando um algoritmo a que recorrem jogadores de xadrez, cria o website Facemash com a ajuda do brasileiro Eduardo Saverin. No Facemash, Zuckerberg expõe a namorada que o rejeitou ao lado de outra garota e promove o concurso "quem é a mais quente", forçando a interatividade dos colegas e reduzindo suas vítimas à condição de vacas leiteiras.

Essa taxonomia esquemática, destruidora de reputações, seria impensável numa cultura humanista, em que vida privada e pública não se misturam, mas parece "normal" numa cultura tecnológica. Por quê? Porque o hedonismo dos jovens do século 21 é vicioso, desconhece limites. Tudo vira jogo nesse ambiente virtual de monomaníacos, que desperdiçam o tempo em conversas fúteis, desprezam a ética e são assaltados por uma psicose social que os leva a ver o "outro" como uma abstração. Estaremos diante de uma mutação antropológica? É provável. A internet virou o tabernáculo eletrônico de jovens que se confessam e punem uns aos outros ao expor rostos e almas no altar do Facebook, onde reina Lady Gaga, dona do perfil mais seguido nesse horrendo culto. Vendo como se comportam os nerds de Palo Alto no filme, não surpreende.

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