O homossexualismo camuflado das letras brasileiras

Na sala de um apartamento na Alameda Casa Branca, nos Jardins, três pequenos troféus do Prêmio Jabuti, o prêmio literário da Câmara Brasileira do Livro, um dos mais importantes do País, e outro da Associação dos Críticos de Arte (APCA) fornecem pistas do lugar respeitável que João Silvério Trevisan, 56 anos, ocupa na literatura brasileira.Escolhido este mês como o novo nome da série O Escritor por Ele Mesmo, do Instituto Moreira Salles - projeto que reúne em CD trechos de obras lidos por seus próprios autores -, Trevisan não nega que ao título de escritor pode ser acrescido outro, o de militante.Depois de trabalhar com grande entusiasmo na juventude na católica-maoísta Ação Popular, transformou-se em um dos principais nomes do movimento gay.Hoje, Trevisan, paulista de Ribeirão Bonito, faz da sua literatura o meio para viver seu ideal de transgressão. Afinal, diria o autor, o que seria mais transgressor do que um mergulho em nossas verdades pessoais?Capaz de harmonizar um lirismo delicado com ácida crítica dos tabus sociais, o autor de Ana em Veneza (APCA-94 e Jabuti-95) e do relançado Devassos no Paraíso atualmente estuda criar novos projetos ou retomar outros, engavetados. Em um deles, um polêmico ensaio já iniciado, Trevisan promete deixar a crítica literária brasileira rubra, de raiva ou vergonha, com sua investigação sobre a sexualidade de escritores famosos. Leia a seguir trechos da entrevista. Você separa o militante gay e o escritor? João Silvério Trevisan - Não. Me recuso a fazer essa separação. Hoje boa parte da mídia me olha com desconfiança me achando um mero militante. Na minha cabeça, ser João Silvério Trevisan significa ser militante. Se eu tenho uma perspectiva do amor e se esse amor é massacrado e reprimido, para chegar a esse amor eu tenho que lutar para conseguir esse amor.Seus planos eram fazer um estudo do homoerostismo na literatura? Eu tenho isso como projeto, mas não sei quando vai ser realizado. Aliás eu queria que essa sugestão fosse açambarcada por estudantes de teoria literária.Quem seriam os objetos desse ensaio?Eu abordei vários autores, me norteando por alguns sintomas sérios de gente como Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes, João do Rio, Pedro Nava.Por que rever a vida desses autores?O que me interessa é perguntar o porquê do silêncio que cerca o assunto homossexualidade. Qual é a doença social dos nossos intelectuais, que sistematicamente vem trabalhando para ocultar um dado importantíssimo para entender a obra desses autores. Eu sempre dou exemplo do Thomas Mann. Se você olhar a obra dele do ponto de vista da homossexualdade, a obra se enriquece profundamente. Guimarães Rosa seria um autor homossexual?Não se sabe dizer. O que eu faço nesse trabalho é analisar as suspeitas que existem e por que as suspeitas são lançadas e nunca bancadas. E, claro, os sintomas dessas suspeitas na obra. Em Vinicius quais seriam os tais sintomas?Em Vinicius particularmente eu não examinei. Fiquei com fatos mencionados por biógrafos. No caso dele, eu o incluí para mostrar como essa conspiração do silêncio é poderosa, até o ponto de transformá-lo no grande machão da literatura brasileira e mostrar o medo das pessoas de destruírem esse mito. Em entrevista à "Caros Amigos" você menciona crises de ciúmes entre Vinicius e Toquinho. Eles tiveram um caso?Não sei te dizer. Não aventei hipóteses tão concretas, mas havia ataques de ciúmes do Vinicius. O que isso significa? Eu posso dar as minhas interpretações.Já encontrou dificuldades para levar o estudo adiante?Tive pessoas que me contaram histórias impressionantes de Guimarães, mas quando pedi uma entrevista mais formal, uma professora, por exemplo, me mandou uma carta dizendo que nunca havia dito nada a respeito da homossexualidade dele.E as pessoas falam do quê? Paixões, amores?De amores, de circunstâncias, de trejeitos, inclusive. Existe até uma interpretação de que na verdade o medo do Rosa em entrar para Academia Brasileira de Letras viria do temor de ser zombado pelos colegas por causa de sua voz. Uma dessas pessoas que fui entrevistar disse que Guimarães precisava desmunhecar para poder ficar na diplomacia brasileira onde todo mundo desmunhecava. Caí na risada. Não tem medo de ser visto como uma espécie de delator?Quando eu fui a uma entrevista na Marília Gabriela, ela me fez uma pergunta parecida. "Você não acha que muitas vezes os homossexuais não procuram pêlo em ovo?" Eu disse: e de bom grado. A história da homossexualdiade foi sistematicamente camuflada. Se há motivos para ocultar a realidade, eu terei muito mais para revelá-la. Esta é uma das minhas funções, descobrir qual o papel que ocupo na hipócrita sociedade brasileira, revelando tudo aquilo que ela vive nos subterrâneos de sua sexualidade. Por que aponta em `Devassos no Paraíso´ Diadorim, de Guimarães Rosa, como revelador da ambigüidade sexual brasileira?Se existe uma maneira brasileira de ser, é uma maneira paradoxal, que é justamente essa ambigüidade. Em todos os aspectos, a começar pelo "jeitinho", que não é outra coisa senão dar a entender o que você não é. No caso do Guimarães Rosa, e do Mário de Andrade, você tem dois autores que criaram personagens ambíguos.Aquele personagem da Diadorim - ou do Diadorim. Ele aponta para uma saída brasileira muito original. Que é a saída do Carnaval, da Carmen Miranda. Carmen é um travesti de si mesma. Na literatura de Guimarães nós encontramos esse tipo de cruzamento. Em uma carta, Rosa analisava sua ambigüidade e dizia: "Não se esqueça que eu trabalho com a diplomacia e a essência dela é a ambigüidade". Leitura polêmica de Guimarães. Já vieram as reações?As resistências a essas análises são totais. Quando anos atrás saiu a segunda edição francesa de Grande Sertões, um escritor francês fez uma crítica no Nouvelle Observateur classificando o livro como um dos grandes romances homossexuais do mundo. Jamais um intelectual brasileiro ousou dizer isso. A que você atribui essa resistência a ver Diadorim como ambíguo?Incapacidade de ver e mediocridade. A incapacidade foi criada pela mediocridade do olhar. Há uma conspiração do silêncio em torno da homossexualidade que mais revela do que na verdade esconde.

Agencia Estado,

22 de novembro de 2000 | 13h48

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