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O homem que viu a América

Stephen Shore, o fotógrafo que fez da estrada o seu cenário, fala hoje no SP-Photo Fest

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2011 | 00h00

Autodidata, o norte-americano Stephen Shore, 64 anos, é um mito da fotografia norte-americana, nome correspondente, em dimensão e pioneirismo, ao do escritor Jack Kerouac (1922-1969), autor de On The Road, a Odisseia da geração beat. Foi, aliás, na estrada que Shore construiu sua reputação. Essa história profissional começa cedo, aos 6 anos, ao ganhar de um tio o equipamento para revelar fotos em casa. Quatro anos depois já folheava livros de Walker Evans (1903-1975).

Aos 14 anos, tomou coragem e apresentou suas fotos a Edward Steichen (1879-1973), então curador de fotografia do Museu de Arte Moderna de Nova York, que comprou três delas. "Naquela época não era tão complicado mostrar o portfólio aos curadores de museus ou galeristas como hoje", diz Shore em entrevista exclusiva ao Estado, por telefone, de Nova York, antes de embarcar para o Brasil. Hoje, ele faz uma palestra no MIS, onde expõe 18 fotos recentes de Abu Dabi (2009), a capital dos Emirados Árabes Unidos, como primeiro convidado do SP Photo Fest deste ano.

O idealizador do festival, Luiz Marinho, revela que ainda vai trazer, em novembro, o greco-americano Constantine Manos (leia texto nesta página), um dos principais nomes da agência Magnum. Quem quiser ver Shore ao vivo deve chegar cedo ao MIS, pelo menos uma hora antes da palestra, que começa às 19h30. Os ingressos são gratuitos, mas é conveniente lembrar que ver o fotojornalista Steve McCurry, em maio de 2010, custou aos interessados uma fila que dobrava o quarteirão do museu. Até mesmo os fotógrafos que vão participar de seu workshop no sábado (entre eles Bob Wolfenson) tiveram de passar por sua aprovação, submetendo seus portfólios ao fotógrafo americano - e eram apenas 12 vagas.

Stephen Shore pertence à geração que viu nascer os hippies e a arte pop. Como os primeiros, ele colocou os pés na estrada em 1972, aos 25 anos, viajando de Manhattan a Amarillo, no Texas, para captar a grande paisagem americana, a mesma que o suíço Robert Frank, antes dele, registrou em preto e branco. Shore acrescentou cores a ela, mas suas impressões diferem pouco das imagens de Frank, no sentido de conservarem o mesmo aspecto desolador e solitário das telas de Edward Hopper (1882-1967), pioneiro do hiper-realismo americano. Quanto à arte pop, nunca é demais lembrar que ele, ainda adolescente, frequentou a Factory de Andy Warhol nos anos 1970 (leia texto ao lado), tendo realizado filmes experimentais e conquistado a honra de ser o segundo fotógrafo vivo a ter uma individual no Metropolitan de Nova York, aos 24 anos.

Nada disso parece impressionar Shore. Ele diz que está sempre questionando o próprio trabalho. Numa análise retrospectiva das fotografias que o tornaram famoso - a arquitetura cenográfica das planícies americanas, os lugares desertos que tanto fascinaram Wim Wenders -, Shore revela que, na época, não tinha uma agenda a cumprir nem mesmo uma meta, agindo como um flâneur assombrado pela sedução de "lugares incomuns". E foi com esse título, Uncommon Places, que batizou a histórica série que inaugurou, segundo a crítica americana, uma espécie de vernáculo da paisagem americana dos anos 1970 e 1980. Pouca coisa mudou nela, diz. Talvez seja um pouco mais desoladora por conta da crise econômica que deixou ainda mais arruinados alguns lugares que, no passado, foram importantes centros industriais, como Detroit. "De qualquer forma, a comida é melhor nas estrada do que costumava ser nos anos 1970", brinca.

Por essa época, Shore vagava pelas paisagens texanas explorando elementos formais como o contraste entre texturas e a solidão dos imensos espaços vazios à espera de serem nomeados, exato como um deserto bíblico. É certo que o convívio com a efervescente cena artística da arte pop dirigia o olhar do fotógrafo para signos da sociedade de consumo mais do que hoje. "Atualmente meu contato com artistas contemporâneos é quase nulo", resume. Se há uma influência decisiva em sua vida essa é a de Walker Evans, que, nos anos 1930, contratado pela Farm Security Administration, rodou os EUA registrando a vida dos agricultores atingidos pela Depressão. A diferença é que Shore saiu pelo interior dos EUA sozinho. Evans acompanhava o jornalista e escritor James Agee, tradutor da miséria rural americana dos anos Roosevelt. Outra diferença: Shore não faz fotografia documental com objetivos políticos.

"É certo que tudo tem seu contexto político, mas, mesmo no caso de Walker Evans, creio que essas imagens históricas que tanto nos tocam constituem mais uma tentativa de entender a cultura americana com clareza do que promover um discurso ideológico." A poética de Evans, conclui Shore, o marcou tão profundamente que os efeitos espaciais de suas paisagens evocavam justamente a tridimensionalidade sugerida pelos retratos da América deprimida dos anos 1930 registrados por seu mestre.

Como um fotógrafo ligado à contracultura dos anos 1960 e 1970, que valorizava a independência acima de tudo, Shore diz que esse espírito libertário não morreu. "Muitos jovens têm ainda esse espírito", diz, discordando que os americanos trocaram a liberdade pela segurança em tempos de terrorismo. "Liberdade é algo individual, mas devo admitir que havia mais energia nos anos 1970", conclui, lembrando que as relações também eram mais fáceis. "Um adolescente podia mostrar seu trabalho para alguém como Steichen, o que hoje seria impossível."

QUEM É

STEPHEN SHORE

FOTÓGRAFO AMERICANO

Conhecido por fotos que retratam a paisagem americana longe dos grandes centros urbanos, ele nasceu em Nova York, em 1947, e com apenas 25 anos fez uma road trip para captar imagens que traduzissem o espírito dos grandes espaços vazios da América. Suas fotos marcaram a geração dos anos 1950, de Andreas Gursky a Martin Parr.

SP PHOTO FEST

Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158, 2117-4777). Hoje, 19h30, palestra do fotógrafo. Grátis. Exposição: de amanhã a 16/10.

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