O homem que se tornou presidente ator

O Brado Retumbante trata da ética na política ao mostrar as agruras do deputado alçado ao mais alto posto da República

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h08

Os meandros da ética na política inspiraram a minissérie O Brado Retumbante, exibida pela Globo em janeiro. Os oito episódios, lançados agora em DVD pela Globo Marcas, contam a história de um honesto deputado federal, Paulo Ventura, dono de grandes ideais e, por isso mesmo, ocupando uma posição obscura na Câmara. Mas, graças a um lance do destino (a morte, por acidente de helicóptero, do presidente da República e de seu vice), ele é obrigado a assumir o cargo mais alto do Brasil.

Escrita por Euclydes Marinho, Denise Bandeira, Guilherme Fiuza e Nelson Motta, a série evitou qualquer semelhança com políticos verdadeiros, ainda que a trama seja totalmente verossímil - afinal, empossado presidente, Paulo Ventura é obrigado a conviver com inimigos, que buscam sua derrocada. Domingos Montagner vive o papel principal, o presidente que tem seus defeitos - como o fato de ser mulherengo (trai constantemente a mulher) e de revelar uma certa homofobia ao descobrir que o filho se transformara em um transexual depois de viver um tempo fora de casa.

O DVD traz um depoimento do diretor-geral da série, Gustavo Fernandez, além de entrevistas com os autores. E, sobre seu papel e sobre a prática da política no Brasil, Montagner falou, por e-mail, ao Estado.

Você se inspirou em algum político para criar o personagem Paulo Ventura ou, o contrário, evitou qualquer semelhança?

Não. A orientação do autor e da direção era bem clara quanto ao tom ficcional da obra. Além disso, me pareceu mais interessante pesquisar a natureza da personagem, que era bastante estimulante: um homem comum, sem ambição política, com caráter ético rigoroso, falível, com problemas emocionais e familiares, que vira presidente da República. Riquíssimo para um ator.

Até que ponto você acredita ser possível existir, de fato, no Brasil um político como Paulo Ventura?

Sinceramente, acho melhor acreditar que seja possível existir. Não podemos desistir de querer melhorar este País.

No teatro, você faz parte da Cia. La Mínima, que pede um tipo de interpretação totalmente diferente da empregada na criação de Paulo Ventura, mais contido. Como se passou essa mudança?

O circo, o teatro e o vídeo têm suas próprias exigências. A nossa profissão trata principalmente de sensibilidade e observação. Devemos estar atentos à essência da personagem, aos caminhos que a direção aponta e às características da linguagem.

Evidentemente, Paulo Ventura não é perfeito e, entre seus defeitos, está o fato de ser mulherengo (defeito para um presidente da República, claro), além de ter um hacker na equipe para investigar o ministro da Justiça. Como você vê isso?

São elementos muito importantes porque humaniza a personagem e consequentemente se comunica com o público, que vê nele alguém que podia ser seu vizinho, colega de trabalho ou ele mesmo. Não é um super-herói.

Na sua opinião, a política

brasileira atual está mais para comédia ou tragédia?

Seria cômica se não fosse trágica.

O Brasil tem jeito? Como?

Meu pai dizia sempre: "pra tudo dá-se um jeito, menos pra morte". Seria muito pretensioso eu dar uma fórmula sociopolítica e econômica para o País. O que posso dizer é o que acredito: somos cidadãos e temos de fazer a nossa parte pela cidadania, isso já ajuda muito. Mas, confesso aqui meu desejo de que a educação entre como prioridade, real e absoluta, e não de campanha, na agenda política. Esta cidadania e o aperfeiçoamento social passam necessariamente pela melhoria do nível intelectual e cultural do povo. Não tenho dúvida.

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