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O homem que pintou o mundo

As memórias do pernambucano Cícero Dias vão da casa-grande aos bares de Paris

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2011 | 00h00

Ao morrer, em 2003, dois meses antes de completar 96 anos, o pintor pernambucano Cícero Dias deixou inacabado um despretensioso caderno de anotações. Essa autobiografia nada precoce, escrita no inverno de sua existência, é um documento vigoroso sobre um período barulhento da história mundial, que vai da explosão do modernismo, na década de 1920, ao crepúsculo da ocupação nazista nos anos 1940. Dias foi testemunha privilegiada dos dois, ocupando o centro desse palco, Paris, onde conviveu com os maiores nomes da cultura europeia, entre eles Picasso. Era seu projeto antigo o de produzir esse relato autobiográfico, mas Dias estava tão ocupado em pintar e viver que escrever ficou para trás. Pena. O livro agora lançado, Eu Vi o Mundo, comprova que o pintor poderia ter sido também grande poeta. Seu amigo Picasso achava o mesmo, garante o autor do posfácio, o jornalista Mario Helio Gomes, que convenceu a mulher de Cícero Dias, a francesa Raymonde, de 94 anos, a concluir essas memórias e assinar sua parte final.

O título do livro corresponde à metade do histórico painel do pintor, Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife (1928), afresco monumental que traduz, de maneira sintética, o sentimento desse artista cosmopolita ligado umbilicalmente ao Brasil. Fragmentado como a ordem composicional de suas telas cubistas e atemporal como convém a um surrealista de primeira hora, Dias abre o livro traduzindo em palavras esse amor pela terra natal. Nele, passado e presente se confundem, tornando eterno o gosto do caju da infância no engenho Jundiá, em Escada, Pernambuco, onde o menino Cícero corria atrás de cana e cajá, tonto como uma palmeira ao vento. Dito assim, parece que tudo era felicidade no engenho pernambucano. Mas não. A tragédia o perseguia.

O pintor conta como sofria com o cheiro de santidade da casa-grande, massacrado pelo peso do manto violeta do ensanguentado Senhor dos Passos. Não é de estranhar que ele buscasse na pintura uma contrapartida cromática para os dramas de Jundiá, onde a mística dona Chiquinha, parente do pai, enforcou-se com os cordões de um frade, na mesma casa onde o avô barão foi cercado por cangaceiros. As histórias de Cícero são tantas que poderiam facilmente ter rendido uma nova versão de Menino de Engenho segundo a aristocracia da Zona da Mata, se ele não fosse amigo de José Lins do Rego. Uma, em particular, teria valido a pena ler com mais detalhes, a da passagem da Coluna Prestes pelos engenhos da família, enquanto Maria Bernarda, bisneta de escravos que criou Cícero, rezava para o "cavaleiro da Esperança" abandonar o comunismo.

Se há um memorialista que vem de imediato à lembrança quando se lê Cícero Dias, esse é o mineiro Pedro Nava. É possível sentir o cheiro de incenso e ouvir a agonia das vozes votivas grudadas aos móveis da casa-grande como os objetos de culto que assustavam o garoto. A pintura de Cícero é toda ela um esforço para escapar da fraca luz das lamparinas de Jundiá e viajar nas cores sensuais da Escola de Paris. O pai se conformou com a escolha do filho. Mandou o garoto para o Rio, mas a Escola de Belas-Artes foi rejeitada pelo rebelde - que insistia, além de tudo, em manter seus livros de anatomia artística no colégio dos padres beneditinos onde estudava.

Para alguns familiares, ele virou um renegado, até que Mário de Andrade, aconselhado por Manuel Bandeira, aparecesse em Pernambuco e visitasse sua primeira exposição, após errar com o pintor pelas várzeas canavieiras - o escritor foi levado num arcaico Ford que resolveu enguiçar. Não há muito espaço para discutir o papel do modernismo paulistano no primeiro capítulo dessa longa história que se confunde com a própria modernidade no mundo. No Rio, Cícero Dias seria adotado por Di Cavalcanti. Em Paris, por ninguém menos que seu compadre Picasso. Ainda no Rio, Villa-Lobos mandou que ele aprendesse cenografia para assinar o telão de um balé de Serge Lifar.

As condições materiais do Brasil modernista, mergulhado no arcaísmo técnico, porém, pesavam. Quando estava às voltas com o painel Eu Vi o Mundo..., o pintor enfrentou sérias dificuldades para executar o afresco. Com um repertório boschiano na cabeça, que ia da escada de Jacó a 11 mil virgens impacientes, Cícero não encontrava tintas nem pincéis certos para seu resumo do mundo nos anos 1920, sendo obrigado a se conformar com uma precária bobina de papel kraft. Não importava tanto, afinal. O pintor não faria uma obra de escândalo. Queria apenas "trazer para a pintura o sentimento popular do Nordeste", como Chagall ao transplantar a alma das aldeias russas para as telas - eles, aliás, se tornariam amigos e, curioso, foi mesmo o pintor russo que convenceu Picasso a conservar Guernica em preto e branco (Cícero estava presente no ateliê da Rue des Grands-Augustins na histórica cena).

A França seria a segunda pátria de Cícero Dias. Um dos motivos de sua partida para Paris foi a polícia de Getúlio Vargas, que periodicamente invadia seu ateliê no Rio em busca de panfletos da Liga Sindical, frequentada por ele e os amigos Gilberto Freyre e Di Cavalcanti. Casa-Grande & Senzala (ilustrado por Cícero em 1933), conta o pintor, estava ameaçada de terminar na fogueira pela ditadura do Estado Novo - ele não cansa de comparar Vargas aos nazistas.

A parte conclusiva dessas memórias chega até o episódio da convocação para o pintor comparecer à polícia parisiense, em abril de 1941, por conviver com insurgentes espanhóis e membros da Resistência. Seu amigo, o embaixador Souza Dantas transformou-o, então, em funcionário do governo brasileiro para garantir certa imunidade ao pintor. Um ano depois, ele se encontraria com a amada Raymonde em Portugal. Mesmo sem falar uma palavra de português, ela e Cícero resolveram casar lá mesmo. O resto da história é Raymonde quem conta. E é bom não perder. Só um aperitivo: ela revela como Calder, que tinha quase 2 metros, dançou com o pequenino Miró num jantar em sua casa.

EU VI O MUNDO

Autores: Cícero Dias e Raymonde Dias. Posfácio de Mario Helio Gomes. Editora: Cosac Naify (256 págs., 33 ilustrações, R$ 55)

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