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O homem que pensa no futuro

Sucesso nos cinemas brasileiros, Wagner Moura faz estreia em Hollywood

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

Wagner Moura está no Brasil. Veio por um motivo triste, a morte de seu pai, que lutou bravamente contra o câncer. Na quarta-feira que vem, Wagner volta para o Canadá, onde roda, em Vancouver, seu primeiro filme de Hollywood. Na entrevista abaixo, o ator que personifica no imaginário do espectador brasileiro o eterno Capitão Nascimento (de Tropa de Elite 1 e 2), fala de tudo. O Homem do Futuro, Hollywood, política.

O Homem do Futuro passou dos 200 mil espectadores no primeiro fim de semana, o que significa que poderá atingir os 2,3 milhões de público de A Mulher Invisível. O sucesso é positivo?

Com certeza. A gente filma para se comunicar. O filme é inteligente, divertido, benfeito. É bom para o cinema brasileiro em geral, que este ano já vem alinhavando sucessos. E eu gosto de ser um ator bem-sucedido. Não é só por mim, pelo ego, mas pelo que acompanha o sucesso. O reconhecimento, a possibilidade de fazer outras coisas, de carregar os outros, em quem acredito, comigo.

Você fez Hamlet no teatro. Shakespeare é alta cultura, muita gente vai dizer que O Homem do Futuro não é. O que pensa disso?

Que é um equívoco. Shakespeare era um autor que queria ser popular no seu tempo. Até hoje, para dar sorte, a gente, no teatro, se deseja "merda" numa estreia. Isso vem das bostas de cavalo na porta dos teatros elizabethanos. Se havia muita bosta, era porque havia muito público, portanto, era garantia de sucesso. Os grandes autores, os clássicos, reconheciam a importância do sucesso, por que nós vamos negar isso?

Você diria que há um preconceito contra o sucesso?

É uma coisa que vem do Adorno, da escola de Frankfurt, no século passado. Naquele tempo fazia sentido. A fotografia, o cinema, que havia surgido nas feiras, ameaçavam a aura das obras de arte. Ainda não se sabia direito o que era esse tal de cinema. Hoje, insistir nessa postura não é só um elitismo ultrapassado, é burrice de gente que identifica sucesso com concessão. Pegue o Tropa de Elite 2, o maior sucesso de público da história do cinema do cinema brasileiro. Até estrear nas salas, o filme foi visto por quatro ou cinco pessoas. O diretor José Padilha, o roteirista Bráulio Mantovani, o montador Daniel Rezende, Marco Aurélio Marcondes, que planejou a distribuição, e eu. Ninguém palpitou para dizer que o filme deveria ser feito assim, ou assado, para ter mais público, e o Tropa estourou. Faz concessão quem quer, mas não é ela que garante o sucesso.

O diretor Cláudio Torres es-

creveu O Homem do Futuro para você e, mesmo assim, se surpreendeu com o que você trouxe para o filme. Como Wagner Moura consegue ser três em um? O jovem ingênuo de 20, o homem amargurado de 40 e o canalha que poderia ser?

Pô, cara, não sei. Não tenho fórmula. Lembro de ter dito que o meu cientista maluco só começou as funcionar quando pensei nele como um Professor Pardal brasileiro. Agora, como eu faço essas coisas, não consigo responder. Pedi ao Cláudio para que a gente ensaiasse e ele concordou. Para mim, fazer o homem maduro, até um pouco mais velho, é fácil. Difícil é fazer o jovem, recuperar aquele olhar de pureza, de ingenuidade. Não sei como a mágica se produz. Com trabalho, disciplina, mas também instinto, a gente chega lá. Difícil é explicar.

Você curte os elogios?

Gosto de ser respeitado, como ator e ser humano. Tudo o que faço é para agradar Lázaro (Ramos), Vladimir (Brichta). São meus bróders de Salvador. Fiz muitos amigos no Rio, amigos queridos, mas a minha turma de Salvador eu carrego comigo. Sonhamos juntos e eu gosto de pensar que eles me acompanham e vibram com tudo o que consigo, porque eu também vibro com eles.

As raízes baianas contam?

Demais. Sempre que posso, volto a Salvador. Tenho lá a minha banda, a gente decidiu criar um tema para O Homem do Futuro, minha irmã Vanessa da Mata se integrou ao grupo, fez um vocal incrível. Mandei para o Cláudio e ele gostou, botou na trilha. Essa brodagem é mais que necessária pra mim.

Seu clipe com Vanessa, da música Te Amo, é muito bacana. Como foi fazer?

Me cerquei de amigos, o Lula (Carvalho), que fez a câmera, Daniel (Rezende), que montou. E a Marilena (Ansaldi), que dançou maravilhosamente. Marilena é um mito. Sempre admirei seu rigor, o radicalismo. Marilena se liga à marginalidade, só fez as coisas por acreditar, por necessidade estética e até ideológica, nunca por modismo. Acho que fez uma novela, e se arrepende. Por questões de orçamento e também de planejamento, tivemos um dia para filmar. Foi mágico.

A DIFÍCIL ARTE DE ATUAR EM INGLÊS

Por contrato, Wagner Moura está impedido de falar sobre o filme que roda em Hollywood. É preciso comer pelas bordas, como se diz. O diretor Neill Blomkamp, de Distrito 9, é fascinado pelo cinema de gênero, e pela ficção científica. Elysium é fi-ci?

"Não dá para dizer, mas o que posso adiantar é que é um projeto muito bacana. Quando cheguei a Hollywood, tudo o que me ofereciam não me interessava e para o que queria fazer eles já tinham o Javier Bardem. Aí veio esse papel de vilão. Não deu para recusar."

Blomkamp entende tudo de cultura popular. O repórter constatou ao entrevistá-lo, por Distrito 9. "E ele gosta muito do Tropa. Foi por isso que me chamou, porque o Tropa é político e pop, duas coisas que o atraem muito."

E como é representar em outra língua? "É muito difícil. Sei falar inglês, mas para me comunicar. Outra coisa é burilar as palavras, buscar a sutileza da interpretação. Estava sozinho no Canadá, agora vou levar minha mulher para ficar um tempo comigo. As crianças, não. Seria muito complicado. Elas ficam no Brasil. A produção depois vai para a Cidade do México. Tenho muito chão, ainda, pela frente."

RESPEITO POR DILMA, RECEITA DE LIDERANÇA

Ele foi cabo eleitoral de Marina Silva no primeiro turno da eleição presidencial. A política sempre foi coisa importante para Wagner Moura. O ator nunca abriu mão de ser cidadão, e responsável.

Como Wagner vê agora a presidência de Dilma Roussef? "Dilma tem sido dura com a corrupção e eu tenho o maior respeito por isso. Lula foi o maior presidente da história desse País, mas foi leniente com a corrupção, o mensalão, aquela coisa toda. Dilma, não. É durona. Governar não é fácil, Às vezes, é preciso fazer concessões em nome da governabilidade. Ela tem resistido. É forte."

Como Wagner vê o mundo atual? "Marina teve aquela plataforma centrada em ecologia e direitos humanos. São os temas que vão fazer a diferença, para o futuro. A China pode ser uma economia poderosa, mas como democracia é uma vergonha. O Brasil tem a chance de combater a corrupção e, como economia emergente, mostrar que o desenvolvimento é compatível com ecologia e direitos humanos. São conceitos para valer. Farão uma diferença enorme para que o Brasil ocupe realmente uma posição de ponta no mundo."

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