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O homem que passa (noite de Natal)

Na praça, a ceia da família Silva Santos Souza é um caleidoscópio de outras ceias

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 03h00

A rua é mais silenciosa na noite de Natal. O letreiro da boate Lua Inteira pisca em código Morse. O porteiro oferece um folheto ao homem que passa. Sem tirar as mãos do bolso, ele acena com a cabeça. Impossível saber se foi um sinal de aprovação ou não.

O Noel da loja de conveniência sente um arrepio qualquer ao ver o homem que passa. O elástico encardido da barba falsa se desmancha em pleno oh, oh, oh. Noel pensa que é hora de ir para casa, mas não consegue lembrar se tem uma. 

No farol vermelho, o flanelinha levanta a camisa. De dentro do carro, vidro fechado, um dedão virado para baixo. Não tem moedinha, não tem panetone, não tem sequer um ‘Boas Festas’. O sinal abre, o motorista acelera sem prestar atenção no homem que passa. 

De dentro do carro, com as mãos na cabeça, o motorista pensa: ‘atropelei’. Mas logo se alivia ao perceber que o homem está vivo e sem nenhum arranhão. O motorista não ousa repetir em voz alta a palavra que vem à sua boca. 

Na calçada, um viciado olha para o céu e lembra do pai. Não do pai em caixa alta, etéreo e bíblico. Mas do pai que um dia, abraçando-o pelos ombros, pediu para que prestasse atenção nas estrelas ou em um trenó espacial desgovernado. 

O viciado acorda deste sonho ao pressentir uma aproximação. Ainda sob o efeito da última dose, notou que os pés do homem que passa não tocam o chão. 

Na praça, a ceia da família Silva Santos Souza é um caleidoscópio de outras ceias, com um pouco do que outros Silvas, Santos e Souzas deixaram para trás.

A comida, dividida em pequenos potes, está distribuída em uma tábua de madeira. Existe, ali, por mais submersa na lama da miséria, uma vontade de normalidade, uma vocação para a felicidade. 

O homem que passa quase pediu para se juntar à família. De certo que seria uma maneira digna de passar o seu próprio aniversário. Quando estava prestes a se apresentar, decidiu que deveria continuar andando e andando. 

Longe dali, ainda confuso, o Noel da loja de conveniência não reconhece o filho que chega de carro. Confusos, os dois se abraçam. O rapaz pensa em contar ao velho que tinha atropelado um fantasma. No fim das contas, preferiu não dizer. 

É noite de Natal. A rua está silenciosa. Como sempre acontece em noites assim, alguns presenciam pequenos ou grandes milagres. Vidas se transformam ou apenas são acometidas por um breve soluço.

O homem que passa continua sua caminhada. Tira do bolso o panfleto da boate Lua Inteira e toma uma decisão

* Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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