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O homem que não tuitava

Nem no Twitter ele está.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2013 | 02h11

A acusação sinalizava mau agouro para o praticante da ausência digital. Foi feita contra um jornalista ganhador de dois prêmios Pulitzer. Um dos prêmios foi pelo livro que narra a história secreta da CIA, desde a invasão soviética no Afeganistão até o 11 de Setembro. Até recentemente, além de pertencer à redação da revista New Yorker e publicar ensaios na New York Review of Books, ele era presidente da New America Foundation, instituição dedicada à promoção de ideias inovadoras para os desafios sociais do século 21.

Mas o homem não tuitava.

E essa falha imperdoável foi cobrada por seus colegas tuitantes, em papel, on-line e via mídia social.

Como um profissional pode dirigir uma das melhores escolas de jornalismo do mundo se não tuíta? Em que planeta ele vive? Suas credenciais não se tornam ainda melhores por ter dirigido a redação do Washington Post de 1998 a 2004, quando o jornal sofreu o primeiro choque da transição digital?

A polêmica despertada pela escolha do estimado Steve Coll para diretor da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia me chama atenção não pelo que tem sido chamado de "o grande racha", dividindo profissionais analógicos e digitais. Uma distância, diga-se de passagem, que pode ser tão curta quanto a imaginação de quem pensa que tecnologia é destino, um ponto de chegada para o qual devemos viajar só com a bagagem de mão.

Acredito que o tal do racha possa ser transposto se profissionais veteranos tiverem acesso a ferramentas digitais, sem violar o Princípio de Exclusão de Wolfgang Pauli: duas matérias não podem ocupar o mesmo espaço, ao mesmo tempo, no cérebro de um jornalista. Não importa se o Nobel de Física Pauli não estava pensando no Twitter, na década de 20. Seu Princípio cai muito bem sobre a nossa rotina de multitarefas.

Steve Coll tem enorme experiência e cultura. Além de caráter, esta faceta humana que não é listada no currículo, mas cuja escassez estimula o comportamento de poderosos empresários de tecnologia que invadem nossa privacidade e corrompem o sistema legislativo para avançar os interesses de monopólios nefastos. Coll me parece ter a serenidade ideal para evitar a idolatria à novidade e usar a tecnologia para manter e não sabotar a integridade do jornalismo num currículo universitário.

Um divisor de águas menos comentado é o que separa a produção da autopromoção. Embora as escolas de comunicação continuem distinguindo a publicidade do jornalismo, ser jornalista, como já disse aqui, exige que sejamos um pouco Willy Lomans digitais. O caixeiro-viajante da peça mais conhecida do dramaturgo Arthur Miller sofria para se adaptar à economia do pós-guerra e nós sofremos para não atropelar o ceticismo, parte do DNA da profissão, com a fanfarra de quem alardeia seus produtos.

O jornalista formado por noções como independência e objetividade, o narrador que deve evitar ser protagonista da história hoje passa parte do seu tempo pedindo ao público: preste atenção em mim; leia minha reportagem; fale comigo pela mídia social. Mas a transformação não afeta só o jornalista. Clínicos gerais têm websites com depoimentos de pacientes curados. Catedráticos de universidades listam em suas homepages atributos que não comentariam nem na informalidade de uma reunião de departamento.

Recentemente entrevistei um respeitado autor de não ficção. A entrevista se realizou ao longo de duas ocasiões. Em cada etapa, ele pediu para corrigir suas declarações. Como não estava investigando um criminoso e sim tratando de literatura, a cortesia das revisões era esperada e foi concedida. Mas, ao fim do vaivém exaustivo, me dei conta de que a figura estava voltando atrás em frases que pronunciou, mudando o sentido da conversa. Estava vendendo um peixe e não protegendo a fidelidade a suas palavras originais.

É absurdo e grotesco imaginar um mundo em que cirurgiões vão tuitar da sala de operações a extração bem-sucedida de um apêndice?

Antes de rir, pare e pense sobre como o exercício da sua profissão tem testado os limites da sua compostura.

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