Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

O homem que não dorme na virada

Das 18 h deste sábado às 18 h do domingo, José Mauro Gnaspini não verá colchão algum. Gnaspini não pode dormir. Ele é o Sr. Virada Cultural. Há seis anos, o diretor do maior evento público de arte e cultura do País - quiçá do mundo - tem a incumbência de, durante 24 horas, proporcionar entretenimento para um público estimado entre 3 a 4 milhões de pessoas no coração da maior metrópole da América Latina. E fazer com que tudo dê certo e funcione: palcos, som, luz, camarins, acesso, cronogramas, equilíbrio de egos.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2011 | 00h00

A bordo de um patinete elétrico, Gnaspini percorrerá incessantemente amanhã os 13 palcos e 7 pistas da Virada. Ele parte do centro logístico da coisa toda, o Teatro Municipal de São Paulo, onde estaciona seu veículo. "No começo eu ia de bicicleta. Mas aí furtaram a minha. Com o dinheiro que o estacionamento me pagou de indenização, comprei o patinete, que é fácil de guardar e tem agilidade para passar no meio de multidões", explica.

Gnaspini é, ele mesmo, um consumidor cultural voraz - com particular obsessão pelo rock avant garde de Frank Zappa. Isso fica óbvio quando se examina sua programação. Em 2009, ele trouxe o cantor e guitarrista Ike Willis, que integrou bandas de Frank Zappa, como Project Object, Ugly Radio Rebellion. No ano passado, ele trouxe The Grandmothers of Invention, de Napoleon Murphy Brock, outro grande colaborador de Zappa.

"Enquanto eu estiver aqui, vai ter Zappa. Não posso ficar sem um zappinha", ele brinca. Gnaspini se concentra na parte artística, mas dificilmente consegue escapar das questões adjacentes - os problemas que advêm do gigantismo do evento. "É uma mostra que reúne milhares de coisas legais, mas às vezes as pessoas só falam do que dá errado. Não tem problema, a gente está aqui para ser criticado, é bom, mas tem de ver o caráter simbólico da mostra. Ela traz as pessoas para o centro da cidade, gente que nunca vem, reúne as famílias, ilustra a necessidade da renovação do centro. Mostra para a cidade que a cidade tem jeito, que é só a gente se unir", diz.

As críticas vão sendo transformadas em aperfeiçoamento, ele diz. Este ano, por exemplo, além de aumentarem a coleta do lixo, vão oferecer mais comida e restringir a venda de bebidas alcoólicas. A Secretaria de Segurança Pública possui dados que mostram que, durante a Virada Cultural, a taxa média de criminalidade diminui na cidade inteira.

Outro destaque: a parceria com as unidades do Sesc se intensifica a cada ano, e tem uma oferta artística impensável no circuito comercial, como shows de Selma do Coco e Lia de Itamaracá. "A gente tem de procurar oferecer um espectro o mais amplo possível, de Genival Lacerda a Eumir Deodato, do popular ao erudito. A Virada não pode ser elitista, mas tem de cuidar para também não ser populista."

Obviamente, há quem critique também a onipresença de Gnaspini por todos os lados da Virada. "Acham que eu sou controlador, mas é preciso estar disponível. Isso não é centralizar."

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