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O homem que me fez dançar

Klauss Vianna, que nesta segunda-feira faria 85 anos, foi em minha vida uma presença breve. Menos de uma década; o suficiente, porém, para nela se imprimir, profunda e indelevelmente. Morto há 21 anos, em abril de 1992, sua figura ainda me enternece e mobiliza.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h59

Poderia tê-lo conhecido em Belo Horizonte, onde ambos nascemos, mas foi em São Paulo que nos encontramos, em algum momento de 1983. Repórter da IstoÉ, sugeri matéria sobre homens que dançam. Nureyev? - me perguntaram na reunião de pauta. Não, expliquei, homens comuns, que nem você e eu. Na verdade, não me dava conta de uma insistência significativa em minha vida: estava, fazia tempo, interessado naquilo que pode e que não pode fazer um macho.

Pouco antes, na redação da Veja, imaginei uma reportagem sobre algo então novo, e não apenas para mim: "tios", em vez de "tias", dando aula na pré-escola. Era assim na turma do meu filho, no Poço do Visconde. Entortada pelo olho rombudo da revista, que tudo fazia para achatar nuances e meios tons, transformando-os em rasa curiosidade, minha reportagem não só encolheu como resultou rasteira, reduzida quase a folclore, "olha, gente, que coisa, homem dando aula nas escolinhas..."

E agora lá estava eu, reincidente, me propondo a escrever sobre marmanjos que dançam. Não tardei a perceber que queria mesmo era entrar na dança, mas que, temeroso de areias movediças, mandei o jornalista dar uma sondada no terreno.

Estive primeiro em duas academias, que, embora badaladas, não me impressionaram: me pareceu que se limitavam a servir um X-Tudo coreográfico em que uma coisa pouco ou nada tinha a ver com a seguinte, hoje bolero, amanhã samba, depois rumba. Estava a pique de me decepcionar quando fui conhecer o curso de Klauss Vianna, albergado na academia de Renée Gumiel, na parte menos augusta da rua Augusta.

O encantamento foi imediato. Para minha surpresa, quase nada de música; alguma percussão, às vezes nem isso. A turma, heterogênea, misturava adolescentes do balé clássico, senhoras outoniças, o ator global Miguel Magno e barbados de variada extração e safra). Nenhuma preocupação em dançar "bonito", em submeter o corpo ao espartilho de formas predeterminadas. O que se buscava, insistia Klauss, era desentranhar a dança que cada um traz em si à espera de liberação e fluência. Um belo sem aspas, até mesmo "feio", mas desobrigado de cânones.

Era exatamente o que eu, sem o saber, vinha procurando. A matéria que o repórter HW publicou na IstoÉ nem de longe fez justiça à epifania com que se deparou o homem HW.

Havia uma extensa fila de espera - não fosse Klauss Vianna uma das figuras mais importantes da dança no Brasil -, mas ele me encaixou de imediato, muito, estou certo, em homenagem a nossas amizades comuns, entre elas o escritor Ivan Angelo. Que roupa eu ponho? - perguntei. O ideal, meu nego, sorriu Klauss, seria roupa nenhuma, mas como não dá, venha descalço e de short. Alívio: não precisaria entrar na loja e pedir uma sapatilha nº 40...

Não cansarei você com o relato das preciosas aquisições que Klauss Vianna me proporcionou, na linha da sacação de sutilezas corporais que iam bater no espírito e ricochetear de volta aos ossos, músculos e tendões. Digo apenas que por várias semanas não tive peito de me olhar no espelho no fundo da sala, até dar conta de encarar e acolher o ser dançante que ele me devolvia, algo entre um rinoceronte e um cisne.

Pena não ter durado mais do que dois anos - até o momento em que, num surto de apoteose mental, encasquetei buscar uma "beleza" fora de meu alcance; determinado a fazer bonito, travei feio. E quando, baixando a crista, quis retomar o trilho, aí o Klauss é que não podia, envolvido que estava na feitura de um livro, A Dança, suma de sua arte tornada verbo. Mas me dava esperança: em breve estaria de novo disponível, e então formaria uma turma só de amigos, a começar pelo Ivan Angelo. O melhor estava por vir, pensei, quando no final dos anos 1980 o entrevistei para o Jornal do Brasil. Klauss tinha sofrido infartos, mas parecia não acreditar que o coração estava prestes a tirá-lo de cena.

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