O homem que matou o mito e foi ao cinema

Após reduzir ícones de Hollywood a itens de consumo, o artista tentou criar mitologia própria em filmes marginais

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

17 de março de 2010 | 00h00

Não é gratuita a ênfase na produção cinematográfica de Andy Warhol dentro de sua exposição Mr. América ? nem mesmo esse título uma escolha voluntariosa do curador da mostra, a partir de sábado na Estação Pinacoteca. Brincando, o canadense Philip Larrat diz que Warhol "nunca precisou de um projeto emancipador radical como as feministas". Era, segundo Larrat, um conformista, como cabe a um mister América, representante da força do capital. E o capital sempre esteve associado no imaginário das pessoas às grandes produções hollywoodianas. Warhol queria ser um pop star, ir a festas ao lado de estrelas como Elizabeth Taylor, não um pobre recluso da sociedade destinado a amargar dívidas num ateliê miserável. Sem muito esforço, o artista sucumbiu à lógica do mercado ao fundar sua Factory, que foi de fato uma fábrica de arte, onde filmes, pinturas, gravuras, fotografias, moda e revistas eram produzidos em massa. "Foi o primeiro artista do mundo a se apresentar sem constrangimento como uma marca."

Teste para mitos. Só da série Screen Test, teste a que se submetem aspirantes ao estrelato, Warhol realizou mais de cinco centenas de pequenos filmes, dos quais Larrat destaca o de DeVeren Bookwalter (1939-1987). Chama-se Blow Job, gíria para o ato de felação. No filme de 35 minutos, Eddie movimenta a cabeça em direção ao sol como se fosse a atriz Falconetti em O Martírio de Joana D"Arc, de Dreyer. A observação faz o curador Larrat delirar. "Justamente, lembra muita a sequência em que Falconetti sai do quarto escuro e encara a luz", diz, evocando a cena em que a atriz que representa a mártir é castigada pela luminosidade excessiva do sol, metáfora da iluminação epifânica. Só que, em Andy Warhol, essa epifania é provocada pelo êxtase carnal de um fellatio em que o parceiro de Boolwalter é Willard Maas (1906-1971), um professor de inglês que inspiraria Edward Albee a escrever sua peça mais famosa, Quem tem Medo de Virginia Woolf, retrato de seu casamento turbulento com a atriz Marie Menken (1909- 1970).

Mitos. Curiosamente, embora tenha lançado atores e atrizes que depois trabalhariam em produções hollywoodianas, Warhol não conseguiu criar um mito cinematográfico à altura dos que retratou em suas série de retratos (Marilyn, Liz Taylor, Marlon Brando). Em contrapartida, além de diluir a força mítica dessas personagens, simplificando seus rostos às linhas básicas de um peça de propaganda e distorcendo-os com as cores saturadas da publicidade, Warhol criou um novo vocabulário visual capaz de rivalizar com a linguagem subjetiva dos artistas representantes do expressionismo abstrato, movimento então hegemônico na cultura americana dos anos 1950. Claro que um olho bem treinado sabe que Jasper Johns sempre foi melhor pintor do que Warhol, mas sua projeção dentro do pop não se compara ao lugar ocupado pelo rei Midas do movimento.

Produção mecânica. "Acho que o aspecto mais interessante dessa sua produção de retratos em massa, que poderiam ser reproduzidos ad nauseam por seus assistentes, é justamente a da diluição da imagem do mito, sua redução à impessoalidade e ao vazio reinante no mercado publicitário", observa o curador, apontando a série de serigrafias azuis com o retrato da ex-primeira dama Jackie Kennedy. "Por ser de simples execução, qualquer um podia sobrepor a máscara com seu rosto à pintura monocromática, produção mecânica que possibilitava uma tiragem ilimitada, como qualquer produto de consumo."

Obviamente, seu marchand foi mais esperto que o artista e a lógica que rege o mercado é ligeiramente diferente. Essa produção foi controladíssima. Da gravura em que Warhol mostra a descida do homem na lua foram feitas apenas dez cópias entre 1972 e 1987. Na exposição estão 58 gravuras, além de 26 pinturas, 43 filmes produzidos desde 1965, 39 fotografias e duas instalações. São obras de forte impacto, mesmo que se questione a ética warholiana e sua compulsão por transformar a arte numa afronta à tradição.

Briga histórica. Nos anos 1950, o expressionismo abstrato de Jackson Pollock havia se afirmado como o movimento americano por excelência e mantinha, ainda que a distância, um diálogo com a cultura pictórica europeia. A arte pop americana queria romper com esse vínculo, valorizando aspectos da cultura de massa dos EUA. Como Roy Lichtenstein ocupou-se dos quadrinhos, coube a Warhol recorrer a latas de sopas e garrafas de Coca-Cola para vencer a concorrência. "Ele fez tabula rasa da cultura americana", define o curador da mostra. Em outras palavras: refutou a vocação mística dos expressionistas abstratos e entregou-se voluntariamente ao esplendor da cultura mundana. A ordinária lata de sopa seria o "antídoto" contra a sensibilidade antiga que reconhecia apenas as maçãs e Cézanne e os pêssegos de Chardin. "O que pessoas como o crítico Robert Hughes não entendem é que ele não queria ser artista, mas famoso", simplifica o curador Larratt-Smith, encurtando a história.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.