O homem que engarrafou o tempo

Os diretores podem receber ocasionalmente manifestações de admiração; talvez até sejam solicitados a dar o seu autógrafo, mas, nos Estados Unidos, ninguém gosta realmente deles. Talvez as pessoas admirem ou invejem James Cameron ou Steven Spielberg ou Francis Ford Coppola ? um grupo bem menor de cinéfilos aguardará ansiosamente a próxima estreia de Woody Allen ? mas sem uma ligação emocional grande com eles. É por isso que a carreira de Clint Eastwood é tão singular.

Joe Queenan, The Guardian, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Por ter começado no cinema como ator, e tendo se tornado rapidamente o ator que grande parte da população passou a adorar, assim como adorava Jimmy Cagney e Cary Grant e as duas Hepburns, Eastwood desfruta há muito tempo de um relacionamento pessoal com o povo americano com que nenhum outro diretor vivo jamais sonhou. (Em toda a minha vida, somente Alfred Hitchcock, que entrava na sala de estar de todas as casas uma vez por semana para apresentar impassível aquelas introduções bizarras às suas séries de suspense na TV, tinha este relacionamento íntimo com o povo americano. Mas os meninos não queriam crescer e se parecer com aquele diretor gorducho. E pouquíssimas mulheres teriam pedido a Hitchcock que tocasse Misty para elas.)

O estreito relacionamento de Eastwood com seus compatriotas é o que Michael Jordan, Joe DiMaggio, Marilyn Monroe e Babe Ruth também experimentaram. A certa altura, assim como Elvis Presley, ele migrou para um território onde não haveria recriminação à sua história pessoal, independentemente de quantos filmes ele tenha feito com Sondra Locke.

Era permitido não gostar deste ou daquele filme de Eastwood ? Cadillac Cor-de-Rosa, Um Agente na Corda Bamba, Rota Suicida ? enquanto não se desgostasse do homem. Até as mulheres que não gostavam de Eastwood esperavam que seus maridos gostassem. O povo americano poderia perdoar você por ser comunista ou ateu. Mas jamais o perdoaria se dissesse que não gostava de Clint Eastwood.

No dia 31 deste mês, Eastwood completa 80 anos. Ele fez mais de 50 filmes como diretor ou ator. Tornou-se uma joia da coroa para a nação americana desde 1959, quando encantou o país no papel do simpático caubói Rowdy Yates na série de TV Couro Cru. Assim como Robert Redford, outro ator que desfruta quase da posição de um deus nos EUA, a carreira cinematográfica de Eastwood só decolou depois dos 30. Mas após o gênero fantástico, operístico de Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito, a partir dos quais se tornou impossível continuar produzindo westerns como sempre haviam sido feitos, ele chegava ao clube para ficar.

Na medida em que os westerns podem ser levados a sério, só há dois caubóis de quem vale a pena falar: John Wayne e Clint Eastwood. Wayne era o príncipe do velho estilo, do High Chaparral, o herói do chapéu branco ? ele abandonou momentaneamente este papel somente em Rastros de Ódio.

Eastwood sempre interpretou o pistoleiro com um passado um tanto obscuro. É assim que as pessoas que cresceram na década de 60 gostavam dos seus personagens principais ? Jack Nicholson em Chinatown, Cada Um Vive Como Quer, Um Estranho no Ninho; Dustin Hoffman em A Primeira Noite de Um Homem e Pequeno Grande Homem, De Niro e Pacino em tudo o que fizeram.

As pessoas daquela época ainda queriam heróis. Mas já não queriam heróis monocromáticos como Wayne e Gary Cooper. Elas gostavam de heróis um pouco neuróticos, com uma história atrás de si. O personagem do homem sem nome se enquadrava perfeitamente na categoria.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.