O homem que deu voz ao capitão nascimento

Bráulio Mantovani lança romance, fala sobre Tropa de Elite e a violência no Rio

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

Foi em meio aos recentes ataques no Rio de Janeiro que a discussão começou a pipocar: "Será que Tropa de Elite 2 teve influência no apoio popular a essas operações?". Bráulio Mantovani, roteirista dos dois longas de José Padilha, estrelados por Wagner Moura, não pensa exatamente assim: "Se fossem influenciados pelo filme, a reação seria contrária. Entretanto, não descarto essa possibilidade".

Mantovani recebeu a coluna no escritório que divide com a mulher, a também roteirista Carolina Kotscho, no coração dos Jardins. A conversa se deu em virtude do artigo Eu Não Sou o Capitão Nascimento, escrito por ele para mais um edição da revista Dicta & Contradicta, a ser lançada amanhã, no Teatro Eva Herz, com debate entre ele e Padilha. Na publicação, o roteirista revela como foi a criação de um dos personagens mais populares do Brasil e discorre sobre a confusão que o público faz entre o que o autor pensa e as ações do policial vivido por Wagner Moura: "Não acho que tortura seja uma maneira eficiente de se fazer uma investigação policial, mas o Nascimento acha".

Por trás das falas truculentas do capitão do Bope está, de fato, um escritor que de agressivo não tem nada. Pelo contrário. Foi com um bate-papo afável, inteligente e fluido que ele falou sobre as polêmicas dos filmes, o roteiro no Brasil e a onda de violência que assolou a capital carioca: "O ser humano é violento. Se não controlarmos esse impulso, a gente se mata. A sociedade tinha que ser desarmada", diz.

O escritor também comemora o lançamento de seu primeiro romance, Perácio-Relato Psicótico, mas deixa claro: "Esse para virar filme só se algum diretor conseguir juntar o Charlie Kaufman e o David Lynch. É esquisito pra caramba". A seguir, trechos da entrevista.

Acredita que Tropa de Elite 2 teve influência no apoio popular às invasões de Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão?

É muito especulativo. Tenho acompanhado essa situação de longe, mas acho difícil que um filme possa ter impacto tão grande na vida das pessoas. Além do que, no Tropa 2, Nascimento diz que a polícia tem que acabar. Portanto, se fosse para seguir a influência do filme, a reação teria que ser contrária. Entretanto, não descarto essa possibilidade.

E, na sua visão, qual seria a razão desse grande apoio?

Acho que está relacionado com a expectativa de ter alguma ordem. A vida dessas pessoas é muito desordenada. Fica ao sabor dos traficantes ou das milícias. É um estado autoritário do pior: ajudam e castigam de maneira impiedosa.

Acredita que seja essa razão do público se identificar com o Capitão Nascimento? Por que ele é um personagem tão popular?

Acho que sim. Desejamos alguma ordem em meio a esse desamparo. O Nascimento é incorruptível, honesto, e que não perdoa. Pensamos: "Ufa! Um cara desses pode nos salvar". Mas pode ser perigoso, Hitler se elegeu assim. E, claro, tem o carisma do Wagner Moura. Sem ele, provavelmente não teríamos mudado o protagonista do Tropa 1.

Como foi feita a mudança de narrador, de Matias para o Capitão Nascimento?

Não se faz isso. (risos) Mudar coisas da história na montagem é normal, mas não o protagonista. Se você notar, Nascimento aparece pouco no primeiro filme. A narração do Matias era diferente, crítica. Mas o filme não funcionou daquele jeito.

Na revista Dicta& Contradicta, você compara o Nascimento com Macbeth e Ricardo III. Pode explicar um pouco dessa ideia?

Isso é hiperbólico. Fomos muito criticados no Tropa 1, como se nosso pensamento fosse idêntico ao do Capitão Nascimento. E, ora, não se pode confundir autor e personagem. Eu acho que a tortura não é a maneira mais eficiente de fazer investigação policial, mas o Nascimento sim. Há obras em que personagens têm mais características de vilão do que de um herói, e nem por isso deixam de ser interessantes. Macbeth e Ricardo III são dois exemplos disso.

E qual é a razão de o filme incomodar tanto?

Existe uma patrulha ideológica com o cinema que trata de questões sociais. Como se esses filmes tivessem que ser uma tese. Isso não é cinema. Nossa pretensão é bem mais modesta: contar uma história. Cobraram do Tropa de Elite compromissos de um documentário. Como se tivéssemos de analisar profundamente todos os aspectos do problema. Na verdade, todo filme é um recorte da realidade. Não generalizamos, não afirmamos que todas as ONGs que atuam em favelas são como a do filme. Nem que o problema da violência existe porque as pessoas consomem drogas.

De novo acontece a confusão entre autor e narrador.

Sim. Do ponto de vista de um cara como Nascimento é isso: o problema existe também porque as pessoas consomem drogas. Eu não concordo com isso e e tampouco esse é o tema do filme. A história é sobre a policia. Filme que quer dizer tudo, não diz nada. Há que escolher um tema central e hierarquizar os outros. Desse modo, existe uma composição dramatúrgica coerente e o filme funciona.

Mas você acha que a descriminalização das drogas ajudaria a acabar com a violência no Rio?

Não. Ajudaria a diminuir a violência associada ao tráfico de drogas. Enquanto os traficantes possuírem armas e o Estado estiver ausente, as comunidade ficarão a mercê do descontrole social. E aí é como a lei do mais forte. O que melhoraria com a descriminalização das drogas seria cortar a entrada de crianças no crime. Eles começam com nove, com 18 estão no auge e morrem com 25.

E a proibição das armas?

Para mim a sociedade tinha que ser desarmada. O ser humano é violento. Se não controlarmos esse nosso impulso, a gente se mata. Fiscalizar as armas seria uma possibilidade de solução.

Você disse que acha Tropa de Elite 2 muito melhor do que o primeiro. Em que sentido?

Em todos. O primeiro foi um filme feito com um remendo. Sou meio frustrado porque trabalhamos o protagonista somente na montagem, não no roteiro. No Tropa 1, Nascimento não tem uma curva dramática, ele é igual durante o filme todo. Quem tem uma transformação importante é o Matias. Já no Tropa 2, pudemos ir a fundo no personagem. Isso resultou num roteiro mais complexo, dramático e menos descritivo.

Há material para um Tropa 3?

Tem coisa para uma série de cinco temporadas. (risos) A questão é outra: o Capitão Nascimento, como personagem, tem mais história? Não sei lhe dizer. Minha sensação é de que não, mas isso pode mudar. Nunca sentamos para falar seriamente sobre um Tropa 3, mas fizemos muitas piadas durante o segundo. Tive uma ideia que deixou os olhos do Wagner brilhando. Era fazer o Tropa 3 como X-Men Origens: contando a formação do Bope e como Nascimento entrou lá. Eu falei como piada, mas é uma possibilidade. (risos)

Muita coisa ficou de fora dos dois filmes?

O maior trabalho no roteiro de ambos foi escolher o que não colocar. No Tropa 2, por exemplo, acabou caindo uma história do policial do Bope que se vestia de Shrek em festinha de criança. A cena era Nascimento na casa do Matias toda detonada pelas milícias. Ele falava: "E aí parceiro, vai falar ou vai pro saco? " e encontrava provas contra as milícias na fantasia. (risos) Mas acabou não cabendo no filme.

Acredita que o roteiro está sendo mais valorizado no Brasil?

Sem dúvida. Com as leis de incentivo e o trabalho muito sério da Ancine, um bom roteiro começou a ser necessário. Nunca achei que eu pudesse viver de escrever longas. Eu desenvolvia projetos, mas era uma coisa diletante. Entretanto, é impossível sobreviver de diletantismo. Hoje vivo exclusivamente de longas. E não sou o único. O que prova que virou uma profissão de verdade. A tendência, na minha visão, é melhorar muito.

Você acabou de lançar seu primeiro romance. Desde quando surgiu essa vontade?

Desde sempre. Decidi ser escritor aos 13 anos. As pessoas gostam do que eu escrevo. Sempre fui péssimo em futebol, mas com boa imaginação. (risos) Escrever um romance já estava na minha cabeça, mas sou muito focado e acabei me envolvendo com outros projetos, só sendo possível publicar agora.

Seu livro poderá virar filme?

Só se algum diretor conseguir juntar o Charlie Kaufman e o David Lynch. É esquisito pra caramba. (risos)

MARILIA NEUSTEIN

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