Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

O homem que dá vida ao sinistro

Martín Trujillo fala dos efeitos criados para mais de 40 produções nacionais

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Radicado em Botafogo, no Rio de Janeiro, o mexicano Martín Macías Trujillo, de 46 anos, vive feliz em seu apartamento entre cabeças decepadas e partes de corpos espalhadas pelos cantos. O contraste entre seu estado de espírito e o cenário que o circunda pode parecer um tanto quanto sinistro. Mas a alegria dele está justamente neste que é seu trabalho. Não, Martín não é um serial killer refugiado num bairro de classe média carioca. Profissional-chave nos sets de filmagens, ele é o responsável pela maquiagem de efeitos especiais em mais de 40 produções do cinema nacional, de diretores como Andrucha Waddington, Walter Salles, Breno Silveira, Cláudio Torres e Sérgio Rezende.

O maquiador e caracterizador constará nos créditos de Tropa de Elite 2, que estreia no dia 8 de outubro. E em outros longas que ainda estão por vir, como O Homem do Futuro, estrelado por Wagner Moura. Mas o assunto do momento é mesmo a sequência de Tropa de Elite, de José Padilha, com o mesmo Wagner. "O primeiro filme mexeu muito comigo, porque me deixou de frente para uma realidade do Brasil que eu não conhecia." Assim como o restante da equipe, o maquiador não dá detalhes sobre o novo filme, mas pelo aumento do volume de trabalho nos sets, tudo indica que a porrada, desta vez, vai ser ainda maior. "No primeiro, era mais simples: fiz a tatuagem do Bope no Neto (Caio Junqueira), o look dos personagens, as feridas à bala, coisas assim. Mas este segundo foi muito mais complexo. Foram meses de preparação. Tive de fazer corpos carbonizados, uma cabeça carbonizada com dentes, outra decepada."

Mas nem só de cabeças decepadas e corpos carbonizados se construiu a carreira de Martín. De olho no mercado sempre carente de mão de obra especializada, ele se aprimorou em outras frentes. Se precisar envelhecer algum personagem, como Fernanda Montenegro em Casa de Areia, de Andrucha, chame Martín. Se precisar desglamourizar um ator com pinta de galã, como Rodrigo Santoro, em Abril Despedaçado, de Waltinho Salles, chame Martín. Perucas? É com ele mesmo. "Fiz um curso no México, porque não encontrava artigos bons. Faço o que for necessário: peruca, bigode, barba."

Tanto ecletismo vem de sua formação, lá atrás, nos anos 90, quando era maquiador da Televisa, principal cadeia de televisão no México. Nascido em Guadalupe, Martín cresceu na Cidade do México. Na adolescência, pensou em ser ator. Tinha uns amigos que estudavam teatro e ficaram sabendo de seu interesse. Chamaram-no para frequentar o grupo amador do qual faziam parte. Durante os ensaios de uma peça, ele conheceu a atriz e cantora Raquel Olmedo. Foi quando caiu nas graças da diva cubana. "Não era permitido assistir ao ensaio, mas acabei conseguindo ficar um dia. Por algum motivo, a pessoa que passava o texto não foi e pediram para eu ajudar. Ao final, eu acompanhei Raquel até o carro dela", lembra. Acabou se tornando assistente dela. Como uma mestre zelosa com o pupilo, Raquel se preocupava com o futuro dele. Ela pagou aulas de gravura que Martín começou a frequentar.

Mas para seguir na carreira de artes visuais, precisava de um aporte financeiro e isso ele não tinha. Soube, então, de uma vaga na Televisa. Precisavam de gente que soubesse manusear látex, para fazer caracterizações para programas da emissora. "Eu, na realidade, não sabia, mas disse que sim. Já tinha visto amigos trabalhando com esse tipo de material", diz. Para a sorte dele, o teste foi com massa de modelar, com a qual tinha mais familiaridade. Resultado? Ficou com a vaga - e sete anos como funcionário da casa. Lá, foi incentivado pela empresa a se capacitar. Aprendeu a maquiar, a fazer cabeças de silicone, a reproduzir hematomas, feridas. Foi para os EUA fazer curso de envelhecimento e rejuvenescimento. E, como membro da equipe de caracterização da emissora, aplicava os conhecimentos adquiridos nas produções.

O retorno. Em 1996, o diretor brasileiro Sérgio Rezende, às voltas com seu filme Guerra de Canudos, foi ao México atrás de profissionais em efeitos especiais. Martín integrou a equipe que veio ao Brasil. "Quando vim para cá, pedi demissão da Televisa, mesmo correndo o risco de ficar sem emprego no futuro." De fato, quando retornou ao México, ficou pouco mais de um ano sem trabalho fixo. Até receber convite de Rezende para participar de Mauá - O Imperador e o Rei, de 1998.

A partir daí, suas vindas ao País se tornaram frequentes. Daí, sua decisão de fixar residência no Brasil, em 2002. Aqui estabelecido, o homem dos efeitos especiais do cinema brasileiro não quer ser tratado como estrangeiro. Quer continuar a alimentar a carreira na terra que o impulsionou profissionalmente. Mas não se furta de sonhar em um dia chegar a Hollywood.

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