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Fábio Porchat
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O homem primitivo

Eu li O Senhor dos Anéis ainda adolescente, mas me lembro claramente da sensação de terminar o primeiro livro e pensar, meu deus do céu, eu preciso ler o segundo, agora! Passei a noite tenso, querendo saber que fim levaria aquela confraria, será que o Gandalf tinha mesmo morrido? No dia seguinte, saí da aula e voei para uma livraria, nervoso, cogitando a possibilidade de ter que peregrinar por alguns shoppings atrás do meu livro. Achei. E comprei o dois e o três, logo de uma vez. 

Fábio Porchat, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 02h00

Também sou muito fã do filme O Iluminado. Acho uma obra-prima e não me canso de assistir. Li o livro duas vezes e gostei, apesar de serem tão diferentes. Quando soube que o Stephen King havia lançado a continuação, parei tudo o que estava fazendo para ir a uma livraria e comprar o tal livro. Li, me decepcionei um pouco, mas valeu. 

Existem algumas pessoas que te fazem parar tudo e apenas ouvi-las. O Pedro Cardoso é uma dessas pessoas. Se ele está em cartaz com alguma peça, dou meu jeito de ir assisti-lo. Já assisti a Os Ignorantes umas quatro vezes; Todo Mundo Tem Problemas Sexuais umas três, além de O Autofalante e Uãnuêi. 

E aí, eu tava vivendo a vida normalmente, quando descubro que ele está em cartaz com nova peça em SP e justamente no teatro onde estou fazendo peça. Ele e a ótima e hilária Graziella Moretto fazem O Homem Primitivo. É o Pedro e isso já seria suficiente, mas, o que eles têm a dizer com o espetáculo, merece ser ouvido. Uma comédia (será?) que trata da mulher e como, desde sempre, ela se encaixa (ou como a encaixamos, nós homens) na nossa sociedade. Dividida em esquetes, acompanha a saga de vários personagens, que constroem uma história em que o machismo está presente. Tanto na cabeça do homem quanto na da mulher. 

Nesses tempos de politicamente correto, abordar um tema tão duro de forma séria já seria ótimo, mas nos fazer pensar e nos mexer por dentro é o que torna esse espetáculo tão interessante. 

O verdadeiro teatro (e a verdadeira comédia, porque não dizer) nos coloca em um lugar de desconforto. Estamos rindo, mas rindo do quê? Por quê? É pra rir? Muito interessante observar a plateia com um sorriso de dúvida. Podemos rir desse cara que disse que bateu na mulher? Podemos rir da fiel enganada pelo pastor? Podemos rir de uma situação em que o estupro é o pano de fundo? Podemos e devemos, porque o riso nos leva a pensar e a refletir sobre o que está acontecendo com a gente, com a nossa sociedade e por que a mulher apanha tanto, de todos os lados, de todo mundo, desde que o homem é homem. Ou por que não dizer, desde que a mulher é mulher. Vá ao teatro e depois me fale o que achou!

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