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O homem livre

'Perdi meu amigo Contardo Calligaris no dia 30 de março. Achei graça ao ver pessoas que ele nunca tinha encontrado ao vivo escreverem textos emocionados falando da intimidade que usufruíam - ele sorriria ao ler alguns. Todos querem 'uma lasca' da fama'

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2021 | 03h00

Quando havia velórios que se arrastavam a noite toda, minha mãe dizia que gostava de comparecer pelas quatro horas da manhã. Muito solidária, ela dizia que era um momento complicado: os da véspera tinham ido embora e os novos assistentes matinais ainda não tinham chegado. Era um momento de desamparo solitário e ela o escolhia por ser assim. 

Perdi meu amigo Contardo Calligaris no dia 30 de março. Já são quatro meses sem ele. Nos dias e semanas seguintes ao passamento, muita gente escreveu sobre ele. Maria Homem, sua companheira, fez um artigo tocante, na Folha de S.Paulo, no dia 7 de abril. No trecho que mais me comoveu, ela relembrou uma conversa do casal: “Na véspera, a pergunta era séria e talvez sem resposta: o que vai ser de mim sem você? Você estava consciente, olhou no meu olho e disse: ‘Vai ser o que você quiser’. Parei de chorar naquele instante. Olhei atônita: você conseguia ser analista até debaixo d’água. Você ofertava ao outro uma palavra para ele seguir. E conseguia ser fiel ao seu mais caro princípio até o final: crie sua vida. Esse é o sentido que ela tem e que você criará para ela”. Poucas coisas trariam tanto a memória do milanês brilhante como a frase: vai ser o que você quiser.

Calligaris era inteligente e uma estrela reconhecida em todo o País. Achei graça ao ver pessoas que ele nunca tinha encontrado ao vivo escreverem textos emocionados falando da intimidade que usufruíam. Todos querem “uma lasca” da fama, mesmo póstuma. Ele sorriria ao ler alguns textos. 

Conheci Contardo por um livro: Hello, Brasil! Eram as impressões dele diante do novo país. Eu tinha saído do RS para vir estudar em SP e ele morava em Porto Alegre. Em São Paulo, comecei a ler sua coluna. Aprendia muito, debatia comigo e com amigos, recortava trechos, guardava. Um dia, há 20 anos mais ou menos, eu o vi tomando um café na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Tinha saído de um cinema. Pensei em abordá-lo, porém tive vergonha. Algum tempo depois, tornei-me paciente dele. A primeira consulta na Rua Batataes foi bizarra. Cheguei meia hora antes, imaginando alguma ficha ou secretária controlando. Nada. Fiquei em uma sala de espera decorada com uma gravura francesa. Não havia som. A sala de atendimento era com porta dupla. Chegou a hora da consulta e nada aconteceu. Passou mais tempo e... tudo permanecia imóvel. De repente, alguém saiu rapidamente do consultório.

Não vi quem era. A sala de espera era disposta a evitar tal contato visual. O silêncio continuava na saleta de espera. Um pensamento bizarro me invadiu: um paciente ensandecido tinha esfaqueado Contardo em um surto e eu estava ali sem fazer nada, sem nunca ter conversado ao vivo com ele. Mais um tempo angustiado e ele surgiu me convidando ao consultório. Narrei meu devaneio e rimos juntos. Os anos seguintes foram de muita conversa, conhecimento e admiração. Calligaris era muito culto. Tive sempre excelentes analistas e tive Contardo Calligaris. Como todo mundo, eu tinha orgulho da grife. Como poucos, fui conhecendo o homem por trás da fama. Disse um dia que ele era um anarquista melancólico. Ele concordou. Emprestou-me livros. Depois de muito tempo, tive dificuldades com horários. Eu e ele viajávamos muito. Acho, pelo menos para mim, que eu tinha me sentido cada vez mais amigo dele. Passamos a nos frequentar, nos saraus aqui em casa, em restaurantes ou na estreia de uma nova temporada da série que ele fazia. Foi exatamente em uma ocasião assim, no ano passado, que ele me recebeu com certa dor no rosto. Dizia ser uma febre e uma infecção urinária. Após a estreia, fomos para a mesa de jantar e ele desmaiou. Acudi. Ele já estava consciente de novo e ironizou:

“Não se preocupem, não estou morrendo”. Estava. Manteve o humor irônico até o fim. Por celular, perguntei a Maria Homem se ele precisava de algo na semana final de hospital, em março deste ano. Ele disse que nada. Ofereci o viático, algo que alguém nascido na católica Milão sabia: a hóstia e a extrema-unção. Ele sorriu e dispensou. 

Conheci muitas pessoas interessantes na minha vida. Poucas eram tão livres como Contardo Calligaris. Era um intelectual com genuíno interesse na história de cada um, especialmente nas pessoas da borda do existir humano. Entediava-se um pouco com coisas comuns, ou, palavra que ele adorava, “boçal”. A liberdade que ele tinha consigo e com os outros foi, com frequência, interpretada como um exercício de distanciamento. Reclamou de um cartão de ano-novo que enviei: “Não acredito em votos”, comentou, “venha comer aqui em casa”. Era italiano do Norte e amava Veneza e Milão. Era um francês e genebrino também. Era nova-iorquino e muito, muito brasileiro. Cidadão do mundo, humanista clássico, lacaniano (ainda que reclamasse ter lido demais Lacan no passado) e um grande estudioso de literatura clássica. Era um amigo que eu gostaria de ter tido também como orientador e professor. Era um homem de estatura moral na liberdade enorme com que concebia a vida de cada um. Aqui na minha sala eu lembro do olhar dele, olhando-me tocar piano, mas atento a cada um. Como ele reclamou que o pai, médico, ganhava muitos presentes no fim do ano e ele, psicanalista, nada recebia, sempre enviava um vinho perto do Natal. Sem votos, apenas com um cartão citando algum trecho de autores que amávamos em conjunto. Não levei a extrema-unção para ele como insinuei brincando, mas ele me deu uma unção permanente. Esse era o segredo de Calligaris: ele mudava as pessoas quando dizia a elas que fossem o que elas desejassem. Já que eu terei o mesmo destino dele no fim, queria ter algo da luz do meu amigo antes da morte. Calligaris despertou em mim o desejo de ser sempre mais livre. Bom domingo.  

* Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de A Coragem da Esperança, entre outros

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