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Leo Valle/EFE
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O homem e o autor na mesma pessoa

Carlos Fuentes, que morreu na última terça-feira,desafiava a máxima de Paul Valéry, segundo a qual todo criador teria dupla personalidade:uma dedicada à vida e outra ao cultivo de sua arte

18 de maio de 2012 | 18h55

A famosa frase de Paul Valéry segundo a qual todo criador abriga uma dupla personalidade - “l’une qui vit, l’autre qui crée” - carecia de sentido no caso de Carlos Fuentes (1928-2012). De fato, nele a própria aventura humana se entrelaçava e se confundia com a ousadia intelectual, e ambas estavam em consonância numa obra à qual pertence não apenas aquilo que nela está escrito - aquilo de que o autor tem consciência e, portanto, deseja transmitir -, como também aquilo que o autor foi enquanto pessoa de carne e osso. Assim, o golpe de vista voraz sobre o mundo e suas manifestações, o impacto literário espetacular no leitor, a reprodução minuciosa da materialidade do real, uma energia que estava cheia de excesso invasor e de uma desproporção paroxística (desproporção barroca que frequentemente se convertia em paródia do alheio e até de si mesmo), uma sensualidade do verbo e da escrita que se iluminava e se mostrava à medida que avançava, e, por último, um ethos que não se esgotava no “escrevo, logo existo”, mas se projetava e ampliava no “escrevo, logo existimos”, são marcos e indicadores que servem para entender tanto Fuentes quanto seus numerosos livros. Homem de letras na acepção clássica da palavra, Fuentes desenvolveu suas singulares características próprias na ficção e no ensaio e também (com maestria) na sua fala: sua palavra nos chegava de maneira sustentada e sem pausas. Desde então, alçou-se à estatura de uma verdadeira personalidade: um animador que observava, opinava e agitava.

“Muito concretamente”, confessou-me alguns anos atrás durante uma entrevista concedida em Buenos Aires, “creio que o romancista dá voz àqueles que ainda não a têm e um nome àqueles que são anônimos”. No caso dele, esta afirmação adquiria ares de uma doutrina: como se a escrita representasse a certeza, e isto apesar de a origem de sua tarefa ter sido a incerteza ou a exposição de uma interrogação, no conjunto da obra de Fuentes o que nos chama atenção é o fundo tumultuado e a cenografia variada e desconjuntada nos quais o destino individual se revela como uma ilusão que só existe e ganha corpo no destino comum de todos. Biografia de entes criados pela imaginação do escritor e biografia de uma história nacional e até continental dão-se as mãos e procedem a conjugar um mesmo verbo ativo. Neste sentido, Fuentes foi o autor de uma grande saga mexicana e, por extensão, de uma grande saga universal. Uma rotunda “comédia humana” (Balzac e seu ciclo de romances foram, para Fuentes, uma referência permanente) na qual os “círculos do tempo” (de acordo com uma expressão cunhada pelo próprio autor para designar parte de suas ficções) giravam e voltavam a girar, impulsionados por um soberbo sopro de geração criadora. Não comparecem, em suas páginas mais iluminadas, um interior e um exterior que se margeiem ou que se olhem mutuamente de soslaio, separados um do outro: ali o que governava era uma totalidade e um universo que não podemos dominar ao evitá-los, e sim ao atravessá-los, a passos largos, para despedaçá-los e recompô-los no trâmite furibundo. Isto explicava, em Fuentes, o casamento entre realismo e artifício que logo explodia como fazem o rojão e a dinamite nos seus títulos maiores: Las Buenas Conciencias, A Morte de Artemio Cruz, Aura, Terra Nostra.

“Não podemos esquecer que entre nós, latino-americanos, o romance propõe uma série de questões que não poderiam ser formuladas senão através de um processo verbal que consiste, fundamentalmente, em indagarmos quem somos, de onde viemos, quem é nosso pai e quem é nossa mãe. Só a literatura pode dar conta destas identidades. Além disso e também entre nós, cada verdade é questionada, relativizada, julgada. É essa a nossa tradição: afirmar os valores plurais diante de uma cultura unitária, intolerante, ortodoxa.” Assim prosseguia falando Carlos naquela entrevista em Buenos Aires, que a morte dele converteu agora numa conversa mítica para mim, que escrevo estas linhas apressadas e pesarosas. Mas recorramos a uma prova que confirme o que foi exposto. Naquele que é sem dúvida seu romance mais dramaticamente intenso, A Morte de Artemio Cruz (que certamente é tributário profundo e assumido do Octavio Paz de O Labirinto da Solidão), a agonia do protagonista era uma metáfora e uma crítica do agonizante regime ideológico herdeiro da Revolução Mexicana, e também a reação impiedosa e turva de um caráter humano. O México mais obscuro e o México mais luminoso apareciam ali num abraço às vezes redentor e às vezes - na maioria das vezes - tantálico. A narrativa do personagem de Antonio Cruz e a narrativa da história mexicana da época se fundem e se confundem, alimentando uma à outra e dando ao leitor a possibilidade de mover-se num horizonte de dimensões duplas que milagrosamente se triplicavam por meio de um texto literário no qual as sequências sistemáticas de “Eu” - “Você” - “Ele” são, por sua vez, três vozes em concerto que ordenam a vida do protagonista e a cronologia daquilo que acontece. Por tais caminhos, e por meio de tais procedimentos, A Morte de Artemio Cruz é uma conjunção de loucura e crime, de barbárie à flor da pele e de golpes de uma paz interior sempre inalcançável. Mas é, sobretudo, o romance emblemático no qual reconhecemos, desde as primeiras páginas - e numa idade muito precoce na trajetória criadora -, o apetite de um escritor que tinha fome de mundo e paixão pelo ser humano, e desejava a todo custo mostrá-los reunidos num mesmo corpo.

É preciso destacar que, assim como evitou tropeçar nas armadilhas simplistas da literatura militante, à qual sem dúvida aderiu ao prestigiar a figura aroniana da “testemunha envolvida”, a testemunha que se compromete, Fuentes também ficava insatisfeito com uma concepção estritamente formalista do literário. É por esse motivo que boa parte de seus títulos encontram suas próprias normas não na servidão à espécie à qual pertencem (romance, teatro, conto, ensaio), e sim na inspiração de estirpe tão iminentemente barroca da qual emergem - que as converte numa daquelas bonecas russas que guardam no seu interior mais e mais bonecas menores. “Os escritores não devem ser profetas, e sim exorcistas”: foi o que ele me disse em determinado momento da entrevista concedida em Buenos Aires. Profeta? Exorcista? Coabitavam nele resquícios das artes de Cassandra e reverberações dos sortilégios do encantamento que, de uma maneira ou de outra, queriam conjurar e talvez legislar aquilo que o próprio autor denominou, com outra de suas fórmulas próprias, “a idade do tempo”, para ordenar e dar conta do conjunto de sua trajetória criadora. Sim, idade do tempo: uma ânsia por abarcar séculos inteiros (Terra Nostra), uma tentativa insone de apreender a história ao reescrevê-la (A Morte de Artemio Cruz), uma vontade de questionar o conteúdo e o continente da herança universal literária (Cambio de Piel).

“Lembra-se, Danubio, daquela famosa declaração do nosso clássico venezuelano, segundo a qual ‘e a selva os devorou...’?”, perguntou-me Carlos ao fim da entrevista. “É para não ser devorado por esta selva que tentei, sempre, opor ao universo novelístico latino-americano da extensão espacial (a selva, os rios, as montanhas) um ‘romance do tempo’. No meu entender, a verdadeira modernidade do romance latino-americano provém de uma reflexão a respeito do tempo e de uma ideia original a respeito dele. Assim, quando comecei a escrever, nos anos 50, quis prolongar esta tradição. Eu me propus a lutar contra o demônio do espaço conquistando-o com a instantaneidade do tempo. E, dado que a história não terminou, é nisso que estou - ainda. O romance, como desejou anteriormente Hermann Broch e como reclama atualmente Milan Kundera, tem que dizer aquilo que não pode ser dito a não ser por meio dele.” Filho da modernidade literária que se inicia no século 19 e atravessa todo o século 20, multiplicando-se e modificando-se até vir, por acaso, morrer aos nossos próprios pés, Fuentes apostou, em grande parte de seus livros, numa renovação que se pretendia ao mesmo tempo artística e moral; o autor encarnava a frase segundo a qual o estilo faz o homem. Analisando retrospectivamente, e com o ciclo vital de Carlos Fuentes agora tristemente cancelado, temos de torcer para que o seu ciclo criador, que já passou a ser patrimônio comum de todos nós, seus leitores, continue a nos falar nos dias pós-modernos tão incertos e cambiantes como os que vivemos, tão pouco amigos do incêndio e da convulsão que distinguem o “gênio” respondão. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

DANUBIO TORRES FIERRO É ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO, DIRETOR DA EDITORA MEXICANA FONDO DE CULTURA ECONÓMICA NO BRASIL

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