O homem do nariz de ouro

O homem do nariz de ouro

O dinamarquês Tycho Brahe foi uma das figuras mais fascinantes da Renascença. Suas observações sobre o movimento dos astros confirmaram a teoria heliocêntrica de Copérnico que tinha revolucionado a astronomia e afrontado a Igreja - embora não a endossasse por completo. Brahe propunha um meio-termo diplomático: os astros circundavam o Sol - mas o Sol circundava a Terra.

Luís Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

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Nascido em 1546, numa família abastada, Brahe sempre contou com a ajuda de parentes e governantes para seus estudos e excentricidades. O rei Frederico II da Dinamarca chegou a lhe dar uma ilha para fazer suas experiências, e Brahe a transformou num pequeno reino cuja corte tinha até bobo: um anão chamado Jepp, que era vidente. Mais tarde, quando já adquirira fama como astrônomo, o próprio Tycho tentou se passar como vidente. Soube da morte de um sultão na Turquia e como, na época, as notícias demoravam a circular, declarou que vira nos astros uma tragédia prestes a abater um potentado oriental. Depois descobriram que as datas da morte do sultão e da previsão não combinavam e Brahe teve que se explicar. Num duelo com um dos seus críticos perdeu parte do nariz, que substituiu por uma prótese de ouro, feita por ele mesmo. Dizem que só usava o ouro em ocasiões especiais. Para o dia a dia, a prótese era de um metal menos nobre.

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Brahe caiu em desgraça com Frederico II mas não ficou muito tempo sem patrocinador. Foi convocado para a corte de Rodolfo II, rei da Boêmia, outra figura fascinante. Rodolfo II tinha transformado Praga no centro cultural da Europa. Grande colecionador de arte, cercara-se de pintores, escritores, filósofos e cientistas. Naquele tempo não havia muita diferença entre as várias formas de especulação sobre a Natureza e o desconhecido, e as categorias "filósofo" e "cientista" incluíam alquimistas, divinizadores e malucos de várias espécies. Pela corte de Rodolfo II passaram, por exemplo, John Dee, conselheiro da rainha Elizabeth I da Inglaterra para assuntos metafísicos, e Edward Kelley, outro inglês que alugava seus poderes paranormais. Rodolfo II apoiava todas as artes mas as que mais lhe interessavam eram as artes ocultas que abririam caminho para as secretas maquinações do mundo, e a vida eterna.

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Tycho Brahe recebeu de Rodolfo II o título de "Mathematicus Imperial". Contratou como seu assistente a Johannes Kepler. Os dois - Kepler com suas sacadas e Brahe com sua meticulosa observação dos astros - fizeram tabelas de movimentação celeste que, com óbvias adaptações, valem até hoje. E isto antes de Galileu, portanto antes do telescópio. Sem telescópio, Brahe intuiu a influência da refração atmosférica na observação astronômica, e valeu-se da descoberta de Kepler de que as órbitas dos planetas são elípticas para complementar suas teses. Formavam uma dupla coesa. Mas pode-se adivinhar que Brahe, muito mais do que Kepler, metia-se nas outras questões "científicas" que apaixonavam Rodolfo II, como sua tentativa de transformar poder terrestre em poder sobre a vida e a morte, e estender sua monarquia ao Universo.

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Entre os artistas colecionados e ajudados por Rodolfo II estava Giuseppe Arcimboldo, aquele das pinturas em que legumes, frutas e vegetais formam figuras humanas, e que para muita gente foi o precursor do surrealismo. Arcimboldo fez um retrato do seu patrono representando o deus romano das estações. O nariz de Rodolfo II é uma maçã. De certa forma, um toque perfeito para completar a loucura reinante.

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Tycho Brahe morreu com 55 anos, em Praga. Segundo uma versão, morreu de bem-educado. Para não interromper um jantar que lhe ofereciam, reteve tanto a urina que sua bexiga explodiu, ou coisa parecida. Mas há quem diga que ele foi envenenado, e um suspeito sempre citado é Johannes Kepler. Difícil de acreditar. Mas depois da sua morte Kepler assumiu o posto de "Mathematicus Imperial" da corte de Rodolfo II, e durante muito anos se valeu dos estudos deixados por Brahe na sua obra impressa, sob protestos da família do morto. Hum...

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Não sei se Tycho Brahe foi velado em caixão aberto com seu nariz de ouro empinado. Seria um fim apropriadamente surrealista.

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