O homem das ruas segundo Alice Munro

Premiada com o Man Booker Prize em 2009, a escritora canadense volta com Felicidade Demais

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2010 | 00h00

Aos 79 anos, a canadense Alice Munro continua na lista dos eternos candidatos ao Nobel. Se dependesse dos amigos escritores, o prêmio já seria seu há muito tempo. Cynthia Ozick, a respeitada contista americana, resume a amiga numa frase: "Ela é nosso Chekhov." Confere, mas com reservas - o estilo parece mais próximo de Turguêniev, especialmente quando se lê o último conto que dá título a seu novo livro, sobre uma protofeminista russa do século 18, a matemática Sofia Kovalevsky. Felicidade Demais, publicado em agosto do ano passado nos EUA e agora no Brasil (chega dia 8 às livrarias), tem muito do autor de Pais e Filhos. Nele, Alice Munro é capaz de tratar do mais escabroso crime de forma tão delicada que até choca o leitor.

Dimensões, o conto de abertura, por exemplo, fala de uma mulher destruída por uma tragédia familiar. Suas três crianças foram mortas pelo marido durante uma noite em que estava fora, acolhida na casa de uma amiga após uma crise nervosa do companheiro. No lugar de uma descrição sensacionalista, a frase do insano marido adverte não só a esposa como ao leitor: "É melhor você não entrar aí."

A verdadeira chacina é a mental, parece dizer Munro, ao reunir nos dez contos do livro tipos extremados como Lloyd, o marido que vai parar num manicômio. O homem das ruas, na visão dessa reclusa canadense, é quase um criminoso. Quando não mata com as mãos, o faz com a palavra - especialmente o homem (Alice é condescendente com as mulheres). Talvez uma exceção seja o compreensivo companheiro da mulher com Alzheimer de um conto mais antigo, The Bear Came Over the Mountain, transformado em filme (Longe Dela), sobre uma mulher que perde a memória e troca o marido por um colega do hospital psiquiátrico.

Busca. Nos contos de Alice há sempre a busca desesperada por alguém que se conheceu no passado e mudou tão radicalmente que se tornou um desconhecido aos olhos do parceiro. Dimensões, o mencionado conto de Felicidade Demais, é exatamente isso e explica a razão de seus contos terem tantos casamentos desfeitos. Uma personagem do conto-título, refletindo sobre as diferenças entre homens e mulheres diz: "Lembre-se sempre de que quando um homem sai de um quarto, ele deixa tudo para trás, mas quando uma mulher vai embora, ela leva tudo o que aconteceu naquele quarto." Faz toda a diferença. Munro, que sofre de câncer e teve de colocar um marca-passo, adianta que seu próximo livro será sobre ambivalência sexual.

Muitas histórias de Alice Munro são ambientadas em Ontário, onde nasceu e reside até hoje. Esse apego regional em seus contos confere às histórias certo intimismo, mas também revela a crueldade dos "pacatos" habitantes das pequenas cidades. Nos 11 livros da escritora canadense, a perversidade e o tema do envelhecimento predominam. Felicidade Demais não é exceção. Pouca coisa acontece em seus contos. O que importa mesmo é a forma com que essa canadense vê um mundo deformado - literalmente, no caso do conto Rosto, sobre um garoto com uma mancha na face, que o pai não suporta ver. Alice Munro encara. E escreve obras-primas.

TRECHO

"O veredicto foi de insanidade, ele não podia ser julgado. Era criminalmente insano - tinha que ser...

... colocado numa instituição psiquiátrica de segurança.

Doree tinha saído correndo da casa e tropeçava pelo quintal da frente, com os braços cruzados apertando a barriga como se tivesse sido cortada ao meio e tentasse se manter inteira. Esta foi a cena que Maggie viu quando voltou. Tivera uma premonição e fizera meia-volta na estrada. O primeiro pensamento foi que Doree tivesse apanhado ou levado do marido um soco no estômago. Não dava para entender os sons que Doree fazia. Mas Lloyd, que ainda estava sentado nos degraus, gentilmente lhe deu passagem, sem dizer nada, e ela entrou na casa e encontrou o que agora esperava mesmo encontrar..."

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