O homem das estrelas

Escritor Timothy Zahn, que vendeu 20 milhões de livros da saga 'Star Wars', vem ao Brasil

Entrevista com

Timothy Zahn

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2014 | 02h05

Prestes a desembarcar pela primeira vez no Brasil, o escritor Timothy Zahn, de 62 anos, é um dos artífices privilegiados de uma das maiores sagas estelares de todos os tempos. Ele foi incumbido, em 1989, de trabalhar literariamente o chamado "universo expandido" de Guerra nas Estrelas (Star Wars). Seus primeiros livros, que formam a apelidada Trilogia Thrawn (Herdeiros do Império, O Despertar da Força Negra e Última Ordem), são ambientados cerca de cinco anos após Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi

Após ter o nome aprovado pelo próprio George Lucas para o desafio de recriar o universo de Star Wars (com total liberdade, num momento em que a saga enfrentava certo esgotamento), ele acabou produzindo 10 volumes a partir de 1991. Vendeu mais de 20 milhões de livros até agora e chegou ao topo dos best-sellers do New York Times, reacendendo o interesse pela série. Virou um mito para os fãs. Mas já era bem-sucedido quando aceitou esse desafio: seu livro Cascade Point, de 1984, ganhou o prestigioso prêmio Hugo.

"Sei que o Brasil vive um boom econômico, que tem um bocado de fãs de ficção científica e de Star Wars. Mas é tudo que sei", disse Zahn em entrevista ao Estado. Ele virá ao Brasil em dezembro como convidado da Editora Aleph, referência em publicações de ficção científica no País, para participar da Comic Con Experience (evento de cultura pop e entretenimento que acontecerá de 4 a 7 de dezembro em São Paulo).

Após tanto tempo, quase 40 anos, o universo de Star Wars está ainda em construção. É uma space opera muito atualizada. E o sr. é um dos que mantém essa chama queimando. O que é mais impressionante no universo de Star Wars? Há muitas explicações sobre seu sucesso, mas qual é a sua explicação?

Eu acho que o sucesso de Star Wars se deve ao fato de que fala a pessoas de todos os lugares. É uma história sobre coragem, lealdade, amizade, amor, sacrifício, da luta contra um terrível mal para trazer liberdade ao povo. Acho que é um universo a partir do qual todas as pessoas podem fazer relações com a sua vida cotidiana, identificando-se com os caras bons da saga.

O sr. diz que se trata de um conto clássico de bem contra o mal. Mas há muitas outras explicações. Há autores que defendem um substrato marxista na saga, uma ideia socialista, política. O sr. também vê isso?

Quando você simboliza o bem contra o mal, você sempre vai colocar um lado lutando contra a tirania. E também haverá as contradições: gente presumivelmente boa lutando ao lado do mal, e pessoas presumivelmente más lutando ao lado do bem. A liberdade versus a tirania está no centro da história. E há uma mistura, você tem gente ruim lutando ao lado dos rebeldes e boas pessoas lutando pelo Império.

Às vezes, é possível pensar no sr. como um sujeito que teve a incumbência de reescrever a Bíblia. É um universo ancestral, mesmo sendo tão recente. Hoje em dia, vemos drones sendo utilizados em coberturas jornalísticas, em guerras. Quão próximos estamos da tecnologia de Star Wars?

(Risos) Não acho que estejamos próximos daquela tecnologia. Ainda não há sabres de luz. (risos) Na vida real, há perigos reais e as naves espaciais não existem ainda, não como aquelas. Já existem mãos e braços artificiais, como no filme. Foram desenvolvidos para pessoas que perderam membros, mas aquele nível de tecnologia ainda parece muito distante. A comunicação talvez seja o campo em que estejamos mais avançados. Os primeiros filmes da série, lá em 1977, não tinham ainda a ideia do quanto evoluiríamos nesse sentido, com a internet e os telefones celulares, que manteriam o mundo todo ligado, conectado. É uma tecnologia maravilhosa.

Seu personagem, Thrawn, é uma figura quase negra, um alien. Ninguém da liga politicamente correta o perturbou com esse personagem, por ele ser um vilão?

Não. Na verdade, nunca ouvi nada nesse sentido. Minha vitória, com esse personagem, foi que ele é um alienígena, e não era natural para um alienígena alçar um posto tão alto, o de Grande Almirante. Seu talento natural para o comando fazia com que não fosse questionado. Ele aproxima o Império da luz. Não há nada em particular a respeito da cor ou do fato de não ser humano. Ele comanda a luta contra a Princesa Lea, mas ele tem bons motivos para fazer isso. Não é, nem de longe, comparável a Darth Vader, não é por maldade que ele encabeça essa luta.

Os seus livros são muito populares, venderam milhões, especialmente o primeiro da série. É um nicho literário que se aproxima das pulp fictions do passado. Como o sr. analisa seu trabalho para esse tipo de leitor popular?

Na verdade, não vejo diferença entre meu trabalho original como autor de ficção científica e os livros da série Star Wars. O universo expandido de Star Wars tem me oferecido possibilidades tão vastas quanto as minhas escolhas literárias. Não os faço com a ideia de as pessoas consumirem livros um atrás do outro, mas com a ideia de exercitar a totalidade de minha experiência literária. Sei que muitos escritores também poderiam trabalhar o universo de Star Wars, porque permite muitas experimentações. O que busco com meu trabalho é proporcionar ao leitor uma história bem feita, bem amarrada, com um grande cuidado com os personagens e a coerência da trama.

O sr. tirou alguma inspiração de escritores de ficção científica, como Philip K. Dick, por exemplo?

Quando eu era garoto, havia alguns escritores de que eu gostava bastante, como Mary Mason, Keith Laumer, entre outros. Mas, conforme fui crescendo, fui deixando de ler ficção científica um pouco. Fui me dedicando um pouco mais a ler não ficção, como livros de estratégia militar. Hoje em dia, eu uso muito a internet como fonte de informação, é uma grande fonte. Costumo visitar aeronaves em construção, faço alguma pesquisa tecnológica, mas muito da tecnologia que eu uso nos meus livros não é num esforço para compreender como funciona, mas em como as pessoas reagiriam a ela, se existisse. Como as pessoas interagem com a tecnologia e como ela afeta seu modo de se relacionar.

O sr. disse que está mudando seu foco para compreender os aspectos mais íntimos, pessoais do universo Star Wars. O que pode haver de intimidade numa saga estelar tão épica?

Meus livros tem tratado mais de uma escala menor, principalmente porque os outros filmes e séries de Star Wars já tinham focado nos aspectos gigantescos de uma saga galáctica, de uma aventura galáctica. E eu tenho tentado dar um mergulho interior nos personagens, buscando uma escala mais próxima, que faça espectadores adultos também se interessarem. Eu acho que voltar sempre ao mesmo tipo de coisa, o mesmo tipo de batalha, pode ser potencialmente chato. Os pequenos atos também podem ter importante consequências na vida das pessoas, no ambiente que as rodeia, e é mais ou menos nisso que foco.

Quantos anos o sr. tinha quando Darth Vader disse a Luke Skywalker: "Eu sou seu pai, Luke"?

(Risos) Eu tinha por volta de 20 anos. Era um adulto. Foi uma certa surpresa para todos nós. Eu me lembro que, na saída do cinema, não conseguia acreditar naquela revelação, especialmente porque Darth Vader não tinha motivações, não tinha profundidade. Foi um interessante ponto para a história, porque trouxe um novo foco de conflito para a trama. Foi essa a grande façanha daquela declaração.

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