O homem ainda é o lobo do homem

Ao unir Bertolt Brecht e Sérgio Buarque de Holanda, Cia. do Latão debruça-se sobre a exploração nas relações sociais

JEFFERSON DEL RIOS, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 02h21

O patrão cordial do espetáculo da Companhia do Latão pesca no Rio Paraíba em algum dia do século passado. A cena bucólica é o verniz que procura matizar as brutais formas de exploração e violência nas relações sociais e trabalhistas do país. As matrizes da dramaturgia e direção de Sérgio Carvalho são o estudo Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda e a peça O Senhor Puntila e o Seu Criado Matti, de Bertolt Brecht.

Em uma análise audaciosa e pioneira, Buarque de Holanda apontou a contradição entre o vezo nacional da familiaridade aparente que mascara os desníveis de classe. Por ironia, sua crítica ao "homem cordial brasileiro" foi tomada como elogio e o historiador nunca conseguiu desfazer completamente o equívoco quando, nas suas palavras, seria engano supor que amenidades de superfície possam significar "boas maneiras, civilidade".

O País parece gostar de equívocos. Três anos mais tarde, o compositor Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil (1939), elevada à categoria de um segundo Hino Nacional, mas poucos sabem, por exemplo, o que vem a ser mesmo o verso "meu mulato inzoneiro". Nada contra a poesia, mas a verdade pode ser diferente. Brecht, com humor agressivo fez de Puntila um patrão que quando bêbado é adorável, sóbrio, espoliador e prepotente. Mesmo caso do fazendeiro dedicado à pescaria.

Além de Buarque de Holanda e Brecht, ele cabe também em dois ensaios escritos em um espaço de 40 anos: Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre (1933), que apesar da ocasional tolerância com nossas mazelas, expõe a crueza da escravidão; e Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro (1973) reconstituição da mentalidade burocrática e patrimonialista dos que realmente mandam aqui desde 1500.

O grupo Latão coerente com seu ideário estético e ideológico volta ao tema irresoluto da exploração do homem pelo homem. Se ainda faltasse um argumento sobre a pertinência do espetáculo, bastaria citar o atual e polêmico cientista politico norte-americano Francis Fukuyama, que referenda os estudiosos brasileiros. Em entrevista recente, ele vê a formação da sociedade brasileira e dos demais países latino-americanos com instituições pré-modernas e economia baseada em grandes propriedades. Trata-se de um modelo cujo resultado é a desigualdade, concluiu.

O desafio que o diretor e autor Sergio Carvalho e seus companheiros enfrentam em O Patrão Cordial é o de distribuir a massa teórica numa linguagem cênica que ecoe a agressividade humorística de Brecht. Os enredos do dramaturgo alemão são de esquerda, mas encaixam instantes caricatos que fogem do manifesto.

Trabalhar com Sérgio Buarque e Brecht é uma reinvenção artística complicada porque, no caso, às vezes o tom discursivo e a frase feita (a reiteração do termo "dialética", por exemplo) pesam sobre a naturalidade dos diálogos, ou deixam os personagens esquemáticos, como o comunista no meio rural.

Por fim, surge o inesperado: o patrão é simpático. Pode ser uma tentativa de contar distanciadamente os fatos, mas, o equilíbrio dramático eventualmente vacila. Enquanto o Sr. Peachum, explorador de mendigos da Opera dos Três Vinténs pode ser simultaneamente sinistro e o seu tanto farsesco (Túlio de Lemos conseguia os dois efeitos na montagem brasileira de 1964), o estilo interpretativo caloroso de Ney Piacentini constrói um patrão excêntrico, um amalucado sem a fria maldade argentaria e de classe que, se supõe, é o objetivo da encenação. Paradoxo a ser resolvido porque Piacentini tem experiência e é comprovadamente bom ator.

A gravidade da situação está no olhar ofendido-desconfiado e nos gestos lentos-cautelosos do motorista (o criado) representado por Ricardo Monastero e no desequilíbrio exposto com paixão e fúria por Helena Albergaria, atriz brilhante. Há uma circulação de intérpretes na companhia - que sempre funcionou como oficina de ideias e laboratório de artes - que por vezes altera o resultado de um espetáculo para outro, mas, mesmo com os momentos menos resolvidos, há em O Patrão Cordial o ambiente entre Brecht e algo do tom sombrio do romance A Menina Morta, de Cornélio Pena, ambientado no mesmo Vale do Paraíba.

CRÍTICA

EQUILÍBRIO DRAMÁTICO

EVENTUALMENTE VACILA

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