O hippie e o militar

O guerreiro Inácio de Loyola e o esfarrapado menestrel de Deus, Francisco: opostos e próximos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 02h00

Em 1979, Milos Forman lançava Hair, musical da Broadway adaptado para o cinema. A narrativa é icônica no elogio do movimento hippie, sumido do mapa naquela altura do campeonato. Contracultura em oposição ao militarismo da Guerra do Vietnã. Hippies e militares pareciam habitar dois universos diferentes. Será sempre assim?

Na segunda-feira desta semana, a Companhia de Jesus celebrou o dia de Santo Inácio, falecido em 31 de julho de 1556. Sua carreira militar e sua retórica o identificam com um soldado de Deus. O hino dos jesuítas brada “Glória a Deus, és Inácio general, dessa Companhia real, esquadrão de valor imortal”. Seu lema é triunfal: Tudo para a maior glória de Deus. Talvez a concepção militar-contrarreformista explique por que os jesuítas são a única ordem religiosa do planeta a não possuir um braço feminino. 

Vamos retroceder um pouco mais e descer ao mundo italiano do século 13. No outono de 1226, deitado no chão, cantando seus hinos de louvor à criação e pedindo desculpas ao irmão corpo que fora tão fustigado por jejuns e penitências, morria Francisco de Assis, um proto-hippie de Deus. Amava a natureza, a simplicidade, desprezava a hierarquia. Claro que chamá-lo de hippie é anacronismo, mas o paralelo com o movimento da Era de Aquário funciona mesmo assim. Poderiam existir figuras mais antípodas do que as do guerreiro Inácio de Loyola e do esfarrapado menestrel de Deus, Francisco?

Preciso trazer um breve dado biográfico para os leitores situarem um pouco mais minha subjetividade autoral. Fui educado por franciscanas desde o jardim da infância. Vivi no louvor ao “poverello” (pobrezinho) da Úmbria, visitei a bela Assis com incontida emoção diante dos locais onde ele e Clara viveram e morreram.

Após anos de vivência franciscana, fui para o amparo pedagógico e formativo dos jesuítas. Sobre o substrato de Francisco, sobrepunha-se o de Inácio. A irmã pobreza convivia agora com a santa obediência. São ordens distintas sob o mesmo guarda-chuva católico.

Francisco é muito popular. É o santo padroeiro da Itália e associado ao pacifismo. O atual papa, um jesuíta, adotou seu nome como modelo de uma nova Igreja. Francisco de Assis fala aos animais, acalma lobos, corre pelos campos e canta, ébrio da poesia da criação. Sem nada ter de seu além do hábito esfarrapado, sente-se pleno e rico. Diante do bispo Guido, entrega até as roupas ao pai Pedro e proclama que agora pode rezar o Pai-Nosso, pois seu verdadeiro Pai está no céu. Claro, éramos jovens e, quando alguma circunspecta religiosa lia que a mãe de Francisco se chamava Pica Bernardone, caíamos em ímpia gargalhada. 

Inácio nunca foi o santo das massas. Apesar da imensa importância da sua ordem a partir do século 16 e da canonização em 1622, nem ele nem seu amigo São Francisco Xavier ganharam multidões. Por motivos complexos, santos jesuítas não gozam da mesma força midiática dos franciscanos. Os inacianos empenharam-se na difusão da água do fundador com poderes curativos. Nunca houve filas para o líquido abençoado.

O belíssimo altar de lápis-lazúli onde Inácio está enterrado em Roma (igreja Santíssimo Nome di Gesù), uma obra de arte do barroco, causa admiração estética e selfies mais do que preces. O austero túmulo de pedra na basílica de Assis é local de lágrimas e de incontida emoção de peregrinos. Os afrescos de Giotto, a vista do vale ao sair da basílica, a pedra inconfundível de Assis, a paz que cai sobre a cidade cercada de olivais ao fim do dia são algo que toca o coração. 

Inácio e Francisco são mais próximos do que o público imagina. Ambos adquiriram a certeza vocacional em meio a uma doença. Francisco, um playboy que consumia seus dias em festas entre a jeunesse dorée da cidade. Inácio, um militar vaidoso e mulherengo. Ferido na perna em Pamplona, o espanhol exigiu que quebrassem novamente seu osso para que a calcificação defeituosa fosse corrigida. Preferiu a dor e a convalescença prolongada ao risco de mancar. Ambos doentes, leram textos religiosos e mudaram de vida. Ambos tinham formação acadêmica deficitária. Francisco nunca a corrigiu e Inácio foi estudar já maduro em Paris. Inácio era nobre, Francisco era burguês, ambos privilegiados. O ideal de cavalaria estava nos dois. Francisco esteve preso em Perúgia. Foi sua primeira crise existencial. Após, o jovem da Úmbria ouviu uma voz que vinha de um crucifixo em São Damião, dizendo para reconstruir Sua Igreja. Seguiu a instrução ao pé da letra e reformou a capela. Era ruim de interpretação de texto. O crucificado não falava do prédio. 

Há uma faceta pouco conhecida de Inácio, ele chorava muito com as consolações de Deus. Seu médico chegou a advertir que ele ficaria cego. O jesuíta amava contemplar as estrelas. Em determinado momento da vida, a simples visão de uma pessoa parecia trazer-lhe o encanto com a obra divina e ele se emocionava. 

Como Francisco, Inácio foi o primeiro superior da sua ordem. O italiano parecia pouco feliz como administrador e chegou a ter crises de consciência sobre os rumos franciscanos. Inácio estava mais à vontade ao leme. 

Francisco usou marrom e seu capuz (cujo formato foi alvo de debates na história da Ordem) com uma corda a lembrar os três votos criou imagens tradicionais. É visto ao lado de uma caveira, desapego dos valores do mundo. Inácio é representado mais solene, com roupa completa de missa ou com o hábito negro. O espanhol foi ordenado padre; o italiano morreu leigo. 

Inácio era afeiçoado a uma oração tradicional que não era sua, a “Alma de Cristo”. A prece “Tomai, Senhor, e recebei”, de sua lavra, é pouco conhecida. O cidadão de Assis, jogral de Deus, é famoso por um texto que ele nunca viu, pois é uma criação francesa do fim do século 19 ou início do 20: a oração de São Francisco. 

Os franciscanos salvaram a igreja da Baixa Idade Média, consagrando o célebre sonho do papa Inocêncio III: um frade simples a sustentar nos ombros a basílica que desmoronava. Os jesuítas, de algumas formas, salvaram uma parte do catolicismo moderno, pois detiveram a Reforma Protestante em muitos lugares, como no sul da Alemanha, e expandiram a influência romana pelas Américas, Índia e Extremo Oriente. 

Opostos e complementares, Inácio e Francisco foram empreendedores religiosos. Um dia, em uma cama, adoentados, decidiram mudar suas vidas e o mundo. Fizeram. Sempre acho isso extraordinário. Boa semana a todos vocês. 

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