O herói em busca de redenção

Como agem os homens sob pressão? A velha pergunta é refeita na perspectiva do ex-policial que sobrevive como investigador e é contratado por ninguém menos que o prefeito de Nova York

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2013 | 02h08

Allen e Albert, os Hughes Brothers, se iniciaram na direção, em dupla, no começo dos anos 1990. Adquiriram algum prestígio com filmes como Do Inferno, adaptado da graphic novel de Alan Moore, e O Livro de Eli. Allen tem investido numa carreira solo, e assina Broken City, Linha de Ação, em cartaz nos cinemas. Como agem os homens sob pressão? A velha pergunta é refeita na perspectiva do ex-policial Mark Wahlberg, que sobrevive como investigador e é contratado por ninguém menos que o prefeito de Nova York (Russell Crowe) para tirar fotos da mulher. Aparentemente, o prefeito quer saber com quem Catherine Zeta-Jones o está traindo. Não é nada disso - Mark Wahlberg vai ser usado como ferramenta numa trama de assassinato. E o móvel não é o ciúme, mas o encobrimento de uma fraude econômica monumental.

Parece perda de tempo falar de Linha de Ação, que nos EUA e na Inglaterra foi tratado a pontapés pelos críticos. O distribuidor brasileiro talvez tenha se aproveitado disso ao rebatizar Cidade Partida (título original) por Linha de Ação - Hollywood Report disse que o filme é um policial de linha, igual a muitos outros e pouco convincente no panorama atual. The Guardian bateu ainda mais forte - disse que é inferior a uma centena de outras produções do gênero.

Mas suponhamos que vale a pena perder tempo com Linha de Ação, à espera de uma certa frase que é dita lá pelas tantas. Aliás, é isso que une os três filmes policiais nesta página, além da ação e do personagem sob pressão. Cada um tem o seu momento revelador, que pode até passar despercebido, se o espectador se fixar somente nas explosões de ação. O primeiro aspecto importante de destacar, e neste sentido o respeitável The Guardian deve estar brincando conosco, é que o filme não é tão pouco convincente assim, e menos ainda no panorama atual.

O 'herói' é um ex-alcoólatra que deixou a polícia por matar um suspeito e a bebida por amor a uma mulher, uma atriz, que vai seduzir um diretor e protagonizar uma ousada cena de sexo que, naturalmente, vai acabar com o romance de ambos. O romance, a bem da verdade, só existia ligado ao apoio que o policial deu à família da moça após o estupro e assassinato da irmã dela, episódio que se relaciona ao crime que ele próprio cometeu. O prefeito é corrupto, ponto. Sua mulher odeia o marido e secretamente trabalha em conluio com a candidato da oposição na eleição municipal. E há o chefe de polícia, Jeffrey Wright, também desafeto do prefeito.

Um filme de ação em que ninguém presta não é certamente algo comum. O próprio conceito de 'prestar' vai mudando ao longo do relato, quando o espectador começa a descobrir os motivos secretos de cada personagem para fazer o que faz. Wahlberg perde a mulher e é acuado pelo prefeito, que lhe mostra um vídeo que o incrimina. "Nós dois somos iguais, a diferença é que eu não mato frente às câmeras", diz Crowe, com a certeza da impunidade. Mas ele não conta com o fato de que Wahlberg, tendo perdido tudo, vai experimentar a velha necessidade de renascer do herói americano, por meio da segunda chance.

A cena é boa. Na véspera da eleição, o prefeito chama os amigos, corruptos como ele, para comemorar antecipadamente. Entra o chefe de polícia para acabar com a festa. Russell Crowe diz a Catherine Zeta-Jones que não o espere. Ela retruca - "Nunca esperei". O chefe de polícia diz baixinho, no ouvido do prefeito, a frase pela qual vale esperar. A cara de Russell Crowe vale o ingresso. Ele, sim, perdeu tudo. / L.C.M.

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