O Hendrix do Alaúde

Festejado músico do Buena Vista, Barbarito Torres toca em São Paulo e elogia violonistas brasileiros

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Faz solos com o instrumento nas costas, toca até com os dentes, faz as cordas de náilon parecerem extensão de suas cordas vocais. Essa parece a descrição que alguém fez de Jimi Hendrix, o superlativo guitarrista do rock, certo? Sim, mas é também a descrição de um notável músico cubano, Barbarito Torres, de 55 anos, que toca com delírio e eletricidade um instrumento de 14 séculos, o alaúde.

Mas esqueça qualquer ideia de tradição insular, aquela ilha de pureza isolada da "poluição" cultural do mundo. Barbarito Torres banhou-se nas águas da melhor tradição da música cubana, integrando grupos como Buena Vista Social Club, Afro Cuban All Stars e Sonora Matancera, mas ele mesmo se encarrega de abrir o leque.

"Quando eu solo com o alaúde nas costas, não é casual. Eu tenho realmente influência de Jimi Hendrix, do rock dos anos 60, e também do jazz, do samba que ouvíamos no rádio na infância. Sou um produto do meu tempo, embora meu instrumento pareça antigo e obsoleto", disse o alaudista ao Estado, anteontem, no meio de um ensaio para um show com uma big band de 14 músicos no Circo Voador, no Rio de Janeiro - que ele repete esta noite na Vila Madalena, no Grazie a Dio. Ontem, tocaria no Teatro Guaira, em Curitiba.

Barbarito já esteve no Grazie a Dio em 2009 e tocou no centro no ano passado, na Virada Cultural. Mas desta vez é um show de fechar o comércio, uma festa cubana completa, com trompete, trombone, percussão, baixo, cantores e o alaúde endiabrado do artista à frente. A orquestra tem dois convidados muito especiais: o veterano cantor Ignácio "Mazacote" Carrilo, de 84 anos (um debulhador de son, charanga, montuno, guajira, bolero e o que mais vier) e o pianista Rodolfo Argundín Justiz "Peruchin". Três gerações da música cubana num mesmo palco."Como sei que está todo mundo esperando por isso, tocarei também Chan Chan e Dos Gardenias", avisa o instrumentista (são dois sucessos do disco que ganhou o Grammy, Buena Vista Social Club, em 1998). Afora isso, quem estiver no gargarejo não pode deixar de pedir alguns clássicos do repertório do alaudista: Yo No Me Voy del Cañaveral, El Quichi Quichá, La Comparsa e Francisco Guayabal.

Barbarito fica no Brasil até o dia 3. Depois, volta para Havana. Em seguida, prepara-se para tocar no festival de jazz da Martinica, onde é um convidado especial. "Sou influenciado por todos os bons músicos com quem toco, como os brasileiros Marco Pereira e Hamilton de Holanda, que estão entre os "más grandes"", diz o músico. "Trabalhei com o Afro Cuban e com o Buena Vista, e até hoje me espanto como essa música alcançou o mundo. Ainda toco com eles, com Omara Portuondo, com Manuel Guajiro Mirabal, mas de maneira provisória. Me encanta trabalhar com eles todos", conta Barbarito. "Hoje, meu grupo é muito familiar. Meu filho toca violão na minha banda, assim como minha esposa, minha filha, minha irmã. Nesse momento, estamos gravando um novo disco em Cuba. Eu mesmo produzo: sou o produtor de todos meus discos."

Nascido Bárbaro Alberto Torres Delgado em Matanzas, ele começou na carreira nos anos 1970, no grupo Serenata Yumurina, dirigido por Higinio Mullens. Em 1973, entrou no exército cubano, onde tocou na banda militar, uma big band jazzística. Ao dar baixa, entrou no Siembra Cultural, que mais tarde seria batizado como Grupo Yarabí. Logo integraria a Orquesta Cubana de Cuerdas e também o Cuarteto Tradicional Matancero.

Sua performance elétrica foi registrada pelo clarinetista Javier Zalba em Barbarito"s Dance, Barbarito explica que sua reputação como expoente da música guajira (ou campesina) tem muita relação com o instrumento que escolheu, o alaúde, porque é nele que se expressam os grandes autores do gênero. "O alaúde é o líder dessa música, que de fato é bastante similar à sua música caipira. Mas eu toco de tudo. Tenho muita proximidade também com o jazz", diz. Conta que esteve na semana passada com o maestro Juan de Marco Gonzalez, cérebro da recente diáspora da música cubana, e que proximamente pode pintar uma nova colaboração com o Afro Cuban All Stars.

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