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Com modéstia e singeleza, Yoshito demonstra ser possível desabrochar aos 74 anos

HELENA KATZ, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2013 | 02h10

Em ambiente quase íntimo no Sesc Consolação, o espaço do CPT, companhia de teatro que Antunes Filho dirige, foi magicamente ocupado. Quem teve o privilégio de lá estar, não esquecerá da combinação entre ação e contemplação que Yoshito Ohno realizou. Com mistura tão cativante quanto misteriosa de singeleza e complexidade, o filho de Kazuo Ohno mostrou que é possível desabrochar aos 74 anos. Com o frescor que apenas a maturidade confere a artistas muito especiais, reconciliou os tempos: dançou a sua dança, que é a dos 53 anos da vida do butô no seu corpo; dançou com palavras que pareciam rápidas no ataque, mas que, na verdade, ficavam quietas, na tocaia de nossa compreensão ligeira; e fez 31 bailarinos dançarem a salvo das bobagens que teimam em conduzir esse tipo de demonstração.

Yoshito intercalou haicais de danças suas com o resultado dos três dias de trabalho com 31 bailarinos brasileiros. Quando o tempo é pouco, o risco é grande. Mas o que poderia acontecer como imitação ressequida floresceu na acertada modéstia das suas escolhas. Apenas três ações, capazes de mostrar como o muito pequeno contém o muito grande. Ritual e cotidiano na mistura certa. Algo se desprendeu de cada um deles e ficou por lá, flutuando. Talvez tenha sido uma aula magna para o tema 'Como é possível transmitir um legado'.

Quando dança ou quando fala sobre dança, Yoshito pratica o que acredita: o butô é aquilo que incendeia. Suas mãos raptam o olhar: é a própria vida que vive nelas, no poder dos seus detalhes, permanentemente cortantes e suaves. Fez dos momentos que dançou uma espécie de enciclopédia básica de referências a Hijikata e Kazuo, seus dois mestres, aqueles que inventaram o butô. Dançou com o dorso, com o coelho citado em um poema que há 50 anos esperava no seu corpo, com o corpo que está desaparecendo no Japão contemporâneo e também com o que nele está se espalhando. Misturou, sem fazer miscelânea, os detritos de uma dança ameaçada de extinção porque é presa fácil dos contornos das suas formas fortes. Como salvá-la? É preciso estudar, ser atravessado pelos seus contextos - foi o que ensinou aos que assistiram e aos que construíram aquela noite. Vivemos, como se fôssemos acrobatas, um daqueles vãos que transfixam vida e morte a golpes cortantes de humor, leveza, seriedade, doçura, simplicidade, lembranças.

Foi uma estiagem na chuva de mesmices desgastadas que têm desesperançado a possibilidade do "butô" continuar a existir. O conjunto desses 31 bailarinos que o contato com Yoshito Ohno fez nascer, atou duas pontas estratégicas para essa sobrevivência: aquela na qual está Dorothy Lerner, que é o vento que espalha a trajetória com Takao Kusuno na sua movimentação, e a outra, que Júlia Rocha representa, com a sua juventude incitada pelo apetite para essas referências.

A dança de Yoshito está no seu gesto singelo de apagar e acender a luz a cada vez, para poder acontecer, para poder se encerrar. Ela continua na breve conversa com a mais destacada pesquisadora em danças japonesas do Brasil, Christine Greiner, e a tradutora Michiko Okano. E sai daquele espaço em cada um dos que viveram a experiência tão extraordinária do está-para-ser permanentemente acontecendo como já-foi. Uma abstração que não é o contrário do concreto porque é vivida no corpo. A dignidade, às vezes, vem e pousa, penetrante.

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