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O grupo

Tinha um grupo de quatro que ocupava a mesma mesa todos os dias. E tinha alguém que queria fazer parte do grupo. Queria, mas não deixavam

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2019 | 02h00

Tinha um grupo de quatro que ocupava a mesma mesa todos os dias. E tinha alguém que queria fazer parte do grupo. Queria, mas não deixavam. Pedia, mas era repudiado. A mesa só tinha quatro cadeiras. Mas Binho não desistia. Começou a dizer que traria gente importante para o bar. Por exemplo:

– O segundo homem da Secretaria de Transportes!

Durante semanas, depois, Binho teve que ouvir a gozação dos outros, sempre insistindo que prometera levar alguém do alto escalão do governo sem especificar o cargo. O segundo homem da Secretaria de Transportes, ainda por cima, passara o tempo todo olhando o relógio, impaciente para se livrar do compromisso com o Binho, que assumira só porque a sua mulher era companheira de academia de uma irmã de um cunhado de não sei quem, e ainda mandara de volta um chope sem pressão. 

Mas o Binho perseverava. Chegou a insinuar que traria a Gisele Bündchen para a mesa, era só acertarem um detalhe na agenda dela (“Amanhã, se ela não estiver em Milão, estará aqui”) e volta e meia aparecia com celebridades secretas.

– Sabem quem é este aqui?

Ninguém sabia.

– O inventor do transístor.

E o inventor do transístor sentara-se, em meio à incredulidade geral da mesa, enquanto o Binho fazia a sua exegese. Pois é, ninguém sabia que o inventor do transístor era um brasileiro. Mais uma injustiça com o gênio nacional. E perguntaram para ele se ele recebia algum róialti pelo seu invento. Nada. Tinha sido descaradamente roubado pelo capital internacional. Quando alguém observou que o transístor, afinal, já existia há algum tempo e o homem não parecia ter idade suficiente para ser o seu inventor, o Binho se animou ainda mais:

– Está aí. Além de tudo, menino prodígio! 

A mesa deu um ultimato. Só passariam para uma mesa de cinco se o convidado merecesse a honraria. O governador, a Gisele Bündchen, um inventor ou outro talento comprovado que só a injustiça dos homens impedia que fosse reconhecido, tudo bem. Mas nunca mais o segundo homem da Secretaria de Transportes ou equivalente. “Está bem, está bem”, disse o Binho, impaciente. Mas dois dias depois apareceu com outro convidado. E uma cara triunfante. Desta vez eles iam ver. Eles iam só ver.

– Quem é esse? 

– Você já vão saber.

O homem que o Binho fez sentar ao seu lado tinha seus 80 anos. Olhos injetados, a barba crescida, mas fora isso bem cuidado. Terno, gravata, cabelos pintados. Usava cigarreira de metal, o que causou alguma sensação no grupo. Cigarreira, há quanto tempo! Curiosa com a falta de informação do Binho, que permanecia em silêncio e sorrindo com superioridade, a mesa fez perguntas ao desconhecido. Ele era dali mesmo, mas viajara muito. Ultimamente, menos. Problemas de próstata e de dinheiro. Mas não podia se queixar, tivera uma vida movimentada. Vivia de poucas rendas e muitas lembranças. Boas lembranças. E então o Binho ordenou:

– Mostra.

– Agora?

– Agora.

E o homem tirou a carteira do bolso de dentro do paletó, abriu a carteira e do seu interior pinçou um fio de cabelo. Obviamente, um cabelo pubiano.

– Diz de quem é – instruiu o Binho.

– Marlene Dietrich.

O olhar do Binho percorria os rostos da mesa como um farol inquisidor. 

– Hein? Hein?

O homem contou que tivera um caso com a Marlene Dietrich. Em Paris. O pelo pubiano era uma lembrança dela, um souvenir amoroso. E contou todo o caso enquanto limpava a travessa de queijinhos e mandava vir mais linguicinha para acompanhar o chope. Ninguém se convenceu, mas pediram mais uma cadeira.

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