O grito faz intercâmbio na Grécia

Projeto de residência da companhia brasileira resultará em espetáculo conjunto

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h09

Um projeto para agradar, e ensinar, a gregos e troianos. Ou melhor, gregos e brasileiros. Em abril a Cia. O Grito viaja para a Grécia para um mês de residência artística na Universidade Aristotélica de Tessalonica, onde promoverá o intercâmbio entre suas pesquisas sobre a cultura popular brasileira e a grega. "É um sonho poder desenvolver este trabalho. Se me perguntassem há alguns meses, diria que é uma ideia incrível, mas jamais que a realizaríamos", conta Roberto Morettho, diretor artístico da Cia. O Grito.

Foi justamente a partir de uma residência universitária que Morettho fez em 2011 nos Estados Unidos que a ideia surgiu. "Passei quatro meses nos EUA estudando. E conheci o grupo grego durante as dinâmicas que realizávamos. E percebemos que tanto nós, do Brasil, quanto os gregos, buscávamos nossas origens, nossa memória artística, que vem se perdendo há tempos com a 'americanização' da cultura global", contra Morettho. "Começamos a conversar sobre nossos trabalhos e surgiu a ideia de um dia fazer um intercâmbio."

A pesquisa do grupo brasileiro busca o treinamento dos atores e a construção cênica a partir dos movimentos e da música e do folclore popular, como o Bumba Meu Boi e a Capoeira. Já a grega se baseia na investigação da tradição do coro grego, mais precisamente da tradição da Polifonika (manifestação ancestral e tradicional da cultura popular da Grécia, em que grupos entoam lamentos em coro) e dos rituais do Ta Anastenaria (tradicional festa grega que tem origem nos rituais de Dionísio e que ainda são realizados pelos católicos ortodoxos).

O grupo brasileiro, formado pelos artista da Cia. O Grito ( Morettho, Alessandro Hernandez, Mara Helleno e Teca Spera), além dos artistas convidados Pedro Peu (capoeira) e Tião Carvalho (Bumba Meu Boi), irá ministrar dinâmicas para os alunos gregos. Em contrapartida, aprenderão sobre a Polifonika e o Ta Anastenaria. Ao final, gregos e brasileiros irão criar um espetáculo conjunto, o Bacantes - Caminhos da Memória. "Nossa base será As Bacantes, de Eurípedes. É o texto ideal para esta ocasião, já que além de fazer referência a um ritual que tem tudo a ver com nossas pesquisas, também traz a questão cultural, tanto do Brasil quanto da Grécia, para o primeiro plano. Nós seremos o deus estrangeiro Dionísio e os gregos serão Penteu, o guardião da tragédia, da história e da origem do teatro no Ocidente."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.