O grito e o rito

Fui ao Teatro Municipal do Rio ver Bobby McFerrin. Com um pé atrás, confesso. Ouvir de novo aqueles malabarismos vocais de 25 anos atrás? Aquela demagogia de "interagir" com a plateia? Aquele otimismo eufórico do premiado Don"t Worry, Be Happy, versão musical da carinha amarela do Smiley, logomarca dos anos em que os hippies pobres viraram yuppies ricos e a Bolsa sorria para todos? Não combina de modo algum com o mundo lá fora, concordam? Mas lembrei do Bobby McFerrin na trilha do filme Por volta da Meia-noite, abrindo com Round Midnight e fechando com Chan"s Song, e dei-lhe um crédito de confiança. Valeu a pena. Sozinho no palco imenso, figurino despojado de sempre, jeans, tênis e camiseta, dreadlocks e barbicha grisalhos, um garoto de 61 anos - Bobby teve direito gracioso ao silêncio absoluto da plateia. E nem precisou cobrar esse silêncio com terror e mau humor, como fizeram os pianistas Keith Jarrett e Brad Mehldau.

Roberto Muggiati, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Na meia hora inicial, Bobby fez incursões sonoras aparentemente aleatórias, tirando partido de sua prodigiosa extensão vocal de quatro oitavas, brincando com as notas sem nenhuma referência a qualquer tema conhecido. Pura improvisação. Não se tratava de scat, o uso da voz como um instrumento de sopro, artifício criado por acaso (dizem) quando Louis Armstrong esqueceu a letra de Heebies Jeebies em 1926 e passou a imitar o trompete com a voz, ba-da-duá-bauá-bua-badi-dá-dá... O scat fascinou vários cantores de jazz, tornou-se clichê com Ella Fitzgerald e contagiou até Sinatra, com seu famoso sku-bi-du-bi-duuu de Strangers in the Night, que inspirou o nome da mais longa série da TV, Scooby Doo. O que Bobby fazia também não chegava a ser vocalise, um lance mais complicado, surgido com o bebop, em que o cantor imita solos instrumentais sobrepondo a eles não mais o tatibitate do scat, mas palavras articuladas com significado.

Bobby McFerrin, que trocou o piano pelo canto em 1977, assimilou os fundamentos do jazz vocal - do grito inicial do blues aos cantores dos anos 1920, dos crooners das grandes orquestras aos boppers e ao estilo cool (Mel Tormé, Chet Baker) e pós-cool (Al Jarreau) - e os temperou com elementos do rock, pop, soul e até do erudito, acrescentando sua própria contribuição, calcada em conceitos herdados da cultura dos anos 60, como a "linguagem do corpo" e a terapia do "grito primal". Foi um pouco de tudo isso que ouvimos nos primeiros trinta minutos de show.

Eu já sentia a falta de algo familiar, um standard, por exemplo, quando identifiquei as primeiras notas de Our Love Is Here To Stay, dos Gershwin. Não podia haver melhor escolha. Foi a última canção que George compôs antes de morrer em 1937, aos 39 anos incompletos. A letra do irmão Ira é destas pequenas obras-primas do cancioneiro norte-americano. Antecipa McLuhan quando diz "The radio/And the telephone/And the movies that we know/May just be passing fancies and in time may go" ("O rádio/e o telefone/e os filmes que conhecemos/podem ser apenas modas ligeiras e com o tempo passarão"). E dá uma aula de geologia e amor no fecho: "In time the Rockies may crumble/Gibraltar may tumble/They"re only made of clay/But our love is here to stay"("Com o tempo as Rochosas podem se esfacelar/Gibraltar pode desabar/elas são apenas feitas de argila/mas o nosso amor chegou para ficar"). Gravada por cantores como Sinatra, Ray Charles, Ella, Billie, Carmen McRae, Lisa Stansfield, Our Love Is Here To Stay é a canção que ouvimos quando Gene Kelly e Leslie Caron dançam à noite sob as pontes do Sena no filme Sinfonia de Paris. Bobby presta a devida homenagem ao clássico dos Gershwin e embarca então num daqueles spirituals automotivos que lembram o Swing Low, Sweet Cadillac de Dizzy Gillespie e Oh Lord, Won"t You Buy Me a Mercedes Benz de Janis Joplin. Passeia por músicas de filmes - Smile, de Charles Chaplin; Bali Hai, do musical South Pacific; um inspirado Over the Rainbow, de O Mágico de Oz - e decide descansar o grito para invocar o rito.

Primeiro, chama ao palco cinco "voluntários" - obviamente de alguma academia de dança - para improvisarem uma coreografia enquanto ele canta. Depois convida 16 cantores, desta vez voluntários de verdade - uns trinta sobem ao palco, rapazes e moças -, que ele tenta reger em improvisações avulsas. Bobby McFerrin sabe tocar nos pontos certos - musicais e emocionais - da audiência, recapturando a função do Xamã que comanda um rito tribal, como demonstra ao marcar o ostinato rítmico do Bolero de Ravel, levando o público a entoar a melodia; ou ao imitar com a voz o acompanhamento de piano da Ave Maria de Bach/Gounod, convocando a plateia para o solo.

Depois de duas horas de música, as pessoas ainda querem mais. Um rapaz do meu lado pede Air on the G String, de Bach. McFerrin canta. Para encerrar, sentado à beira do palco, ele entoa suavemente Blackbird.

Beatles, Bach e Bobby - simplesmente música, sem tempo e sem fronteiras.

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