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O grito do silêncio

Relemos as cartas de Manuel da Nóbrega separando o etnocentrismo do relativismo

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2017 | 03h00

O humano se faz com o outro. Na conversa, no discurso narcisista. Seu modelo mais belo é a declaração de amor, o mais sofrido surge no soluço e o mais solene aparece nas preces.

O Silêncio, último filme de Martin Scorsese, mostra a saga de um outro punhado de jesuítas no Japão. Como não controlavam o poder, eles replicavam os cristãos subversivos antes de o cristianismo se tornar a religião oficial do império romano. Eram, pois, perseguidos e supliciados. No Japão do século 16, os jesuítas se deparam com as barreiras linguísticas e culturais e, para além delas, com o silêncio gritante dos céus. Mas sucumbem agarrados à cruz do Cristo. A fé (eis um mistério humano) recusa o silêncio mesmo quando o oprimido brada com José de Alencar: “Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?”. 

*

Em 3 de setembro de 1974, desembarca na cidade do México um antropólogo de 38 anos. Ele chega de Viena, onde havia participado de uma conferência sobre “rituais”, na qual suas ideias não foram recebidas em silêncio. Estava cheio de si mesmo, mas esbarrou num seco mutismo quando, na casa de Freud, mirou-se num espelho e viu um rosto inocente dos sobressaltos que a vida iria lhe trazer.

No México, onde vai apresentar uma comunicação para um congresso, ele aproveita para visitar a Virgem de Guadalupe – a senhora do céu – na catedral metropolitana. 

Com a contrição dos incrédulos, ele entra no templo na ponta dos pés, mas o silêncio é fraturado pela conversa de uma senhora mestiça com a Mão de Deus. 

– Por favor, virgenzinha de Guadalupe, dá-me o que imploro...

A prece busca o outro que está no céu, o que o jovem ouve é uma conversa de mães a acertarem o destino daqueles que haviam posto no mundo. Ali, não havia o silêncio dos santos diante de mortais desesperados. A senhora falava com a Virgem de Guadalupe e ela respondia.

Naquela noite, o jovem foi jantar na belíssima casa de um simpático professor de sociologia mexicano. Entre drinques, o anfitrião explica o seu revolucionário trabalho. Estudam o campesinato e a política – lidam com um satânico capitalismo.

O jovem pergunta: há alguém pesquisando a religiosidade popular? Fui ao templo de Nossa Senhora de Guadalupe e ouvi um diálogo extraordinário.

Respondeu-lhe um enorme silêncio.

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No dia 29 de março de 1549, desembarcam na Baía de Todos os Santos (que seria a cidade de São Salvador de todos os pecados), Manuel da Nóbrega, João de Azpilcueta Navarro, Leonardo Nunes e Antonio Pires, acompanhados de dois estudantes, Diogo Jácome e Vicente Rodrigues. Sua missão é catequizar os gentios tupis. Com eles, chega Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral do Brasil. A vinda dos jesuítas com o governador mostra como a administração real e a Igreja – Fé e Império – se enlaçam na conquista do Novo Mundo e no que seria o Brasil. 

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Na quinta-feira passada, dia 21 do corrente, o padre Josafá de Siqueira, professor e reitor da PUC do Rio de Janeiro; o padre e professor Luís Corrêa Lima; o diretor-presidente das Edições Loyola, o padre e professor Danilo Mondoni; Fernando Sá, coordenador editorial da Editora PUC-Rio; Paulo Roberto Pereira, professor da UFF, e esse vosso cronista, reuniram-se para o lançamento da obra daquele Manuel da Nóbrega, contemporâneo e companheiro de projeto e missão de Santo Inácio de Loyola, o ex-soldado, fundador da Companhia de Jesus. O livro de Nóbrega, competentemente atualizado pelo professor Paulo Roberto e publicado pela PUC-Edições Loyola, é um retrato vivo das agruras e dificuldades de viver numa outra sociedade; dos problemas de ensinar, mas não ser seguido, e dos mal-entendidos dos encontros de culturas. No choque, o significado chega muito antes do conhecimento. 

No nosso debate, ninguém cometeu o anacronismo de medir os jesuítas dos século 16 pela régua deste nosso igualmente problemático século 21. Procuramos reler as cartas de Nóbrega no fio da navalha que separa etnocentrismo do relativismo. Esse fio que inventa o cosmopolitismo – justo o que foram esses jesuítas catequistas de índios, filhos de mais de uma sociedade, reino e crença. 

Certos de que o relativo não tem como contrário o niilismo, mas o absoluto, acentuamos como todo sistema de valores tem que ser lido em seus próprios termos e circunstâncias, o que não dignifica estar de acordo com eles. A compreensão foi a marca da nossa mesa feita de jesuítas e professores. É para isso que as universidades existem.

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Não ouvimos o silêncio. O silêncio gritado neste nosso Brasil marcado pela doutrina da negação e da mentira que canibalizou a verdade. 

Enquanto isso, no “mundo real” assistimos ao futebol e rola o Rock in Rio. 

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