O grande trovão

Os pajés sabem. Diante de terras indígenas sob ataque, Tupã está irado e protesta

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

26 de janeiro de 2019 | 02h00

Silêncio nas ruas. Pouco movimento. O Natal chegaria em seis dias. Depois, as festas de Réveillon, os planos de viagem. Muitos estariam em férias. Muitos, em sono profundo. Alguns, leve. 

Era uma quarta-feira de começo de verão. O calor ainda não era castigo. Não chovia, nem nada. Mas o choque silencioso de nuvens no céu preparava a cidade de São Paulo para o grande protesto. 

No ar, ansiedade pelos novos tempos, o das mudanças radicais. Fazem-se planos, contas. Euforia da vitória para uns, apesar da indiferença de uma grande parte, e frustração da derrota para outra parte, com medo da perseguição que se iniciará, num momento em que o ódio e a vingança viraram discurso de vitória, pronunciamento oficial, política governamental, em que ameaças foram feitas a grupos minoritários, por uma gente que a maioria desconhece.

Numa aposta no escuro, ou num blefe, numa guinada inesperada, uma meia-volta, ou giro de estibordo a bombordo, o povo deu all in.

Muitos em euforia viciante, não pararam de festejar e atacar. Muitos se fecharam numa depressão inédita. Muitos, num pânico. Muitos, em tristeza profunda. Alguns pediram um help: ninguém larga a mão de ninguém. Quem terá de se esconder? Quem partirá? Como proceder? Como reagrupar? Como resistir? O que pronunciar? O que postar? A quem recorrer? Estarei sem nada no começo do próximo ano? Estarei vivo? Estaremos vivos? Como me defender de ataques? Quem pode me apoiar? 

Outros diziam: vai ser bom, vai melhorar, olha como estava ruim, olha o atoleiro em que estávamos metidos, olha o esgoto que escoava de dutos.

Um ódio imoral é o lema para a alternância legítima, o vento que soprou a nave à deriva. Vizinhos agora se odeiam. Familiares agora se odeiam. Parentes não se encontrarão mais. Amizades foram pro espaço. 

Para alguns, anunciou-se o big-bang divino. Para outros, somos sugados para um buraco negro. Deus veio nos salvar? Ou o anticristo ressuscitou?

Dia 19 de dezembro de 2018. Os relógios bateram 2h em ponto. Um clarão inédito. Uma luz a 300 mil km/s atravessou o vazio entre casas, prédios, árvores, ruas, esquinas e praças, entrou por frestas, janelas fechadas, lacradas por cortinas em blecaute. E veio o estrondo. Mas nem chovia? Uma explosão, um meteoro, uma bomba atômica? O coração acelerou. O que vem, a destruição total? Meus filhos! 

Os dois acordaram. Choraram. Fui acudi-los. Nos abraçamos os três, nos preparando para o pior. Os prédios tremeram, as janelas pareciam que iam se soltar, o chão tremeu: foi o maior clarão e barulho que ouvi na vida. Alarmes dispararam, cachorros entraram em transe, passaram a latir. 

Fui à varanda. Vi luzes de vizinhos se acenderem. Vi vizinhos entrando nas varandas. Vi as ruas desertas. Vi o posto de gasolina ainda aberto, vazio. Vi um farol mudar do verde para amarelo e vermelho. Vi que tudo continuava como antes. Nada da onda de choque. O que terá acontecido? 

Na manhã, um comentário no elevador, outro na padaria, na feira. Um amigo no trabalho. “Você ouviu o trovão?”. Muitos ouviram o trovão às 2h em ponto.

À tarde, manchete em sites de notícia: Moradores de São Paulo Relataram Forte Clarão e Trovão. Moradores das zonas oeste e norte relataram que pensaram se tratar de uma explosão, que tudo tremeu, o espelho de um lavabo caiu e quebrou, o portão automático de um prédio queimou. Os depoimentos apontavam a Vila Romana como alvo do raio. Exatamente num vale circundado pelas montanhas da Cerro Corá, Alto da Lapa, Sumaré, Perdizes, Pompeia.

Ecoou no Pico do Jaraguá? Os moradores da aldeia guarani Tekoá Pyau devem ter lendas a respeito. Talvez o pajé entenda os sinais dos céus. Na tarde anterior, 900 raios atingiram a cidade. 

São quase mil guaranis que vivem em mais de 500 hectares, parentes de índios da zona sul, São Vicente e Boraceia (Silveiras), Litoral Norte. Raros sobreviventes de um massacre que começou há 500 anos. 

Aldeia de 2015 que o governo liberal do Estado de São Paulo de Geraldo Alckmin não reconheceu e ameaçou despejar em 2017, para ceder como parque à iniciativa privada, com a ajuda do então novo governo Temer e seu ministro da Justiça Torquato Jardim, que cancelou a portaria que aprovou a reserva.

A liderança guarani de 23 anos, Thiago Karai Jekupe, sob fogo cruzado de homens brancos de vermelho contra os de amarelo, desabafou: “O que o governo Temer fez foi desmarcar o que tinha de um território tradicional, uma coisa inédita no Brasil. Isso é um crime muito grande. O homem branco não tem palavra”.

Fora o ministro da Justiça de Dilma, José Eduardo Cardozo, que em maio de 2015 aumentou a extensão da área guarani de três para 532 hectares, reunindo três aldeias em torno do pico, a Tekoa Pyau, Tekoa Ytu, Itakupe, Ita Wera e Ita Endy. Ainda assim, formam a menor aldeia por habitante demarcada do País. 

A ciência explicou o trovão. Segundo o professor do Instituto de Ciências Atmosféricas da USP, Carlos Morales, pelos relatos do estrondo, o raio caiu entre as ruas Cayowaá, Paracuê, Aimberê, Apinajés, Caiubi, Tucuna, Caraíbas, Votupoca, Jaricuna, Gurupá, Paumari, Ipacaraí, Iperoig, Guaçu, Natingui e a Praça Araçariguama: “A intensidade do raio não é identificada pelo barulho, mas pela corrente elétrica que pode variar até 100 mil amperes”.

Mas pajés sabem. Tupã, o deus do trovão, está irado. “Lista parcial de terras indígenas sob ataque neste momento no Brasil: Awá-Guajá (madeireiros, no MA), Karipuna (madeireiros, RO), Arara (madeireiros e grileiros, PA), Apyterewa (madeireiros e grileiros, PA), Uru-eu-Wau-Wau (grileiros, RO) e Yanomami (garimpeiros, RR)”, tuitou em 17 de janeiro o jornalista Rubens Valente, autor de Os Fuzis e as Flechas. Tupã protesta.

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