O Grande rio dos mitos

Tomo emprestado o título de um recente artigo do poeta, ensaísta e romancista colombiano William Ospina sobre o rio Amazonas e seu "descobridor", o conquistador espanhol Francisco de Orellana, cujos 500 anos não estão passando em branco na Espanha, nem em alguns dos nove países que integram a região amazônica. Apesar de ter ficado com o maior quinhão da jungla, o Brasil não é um deles. Nestas paragens, o único Orellana de quem ainda (e cada vez menos) ouvimos falar é o homônimo bode da caatinga criado pelo Henfil.

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Somos um povo desmemoriado e acintosamente ignorantes do passado de nossos vizinhos, mesmo daqueles também banhados pelas águas do rio-mar. Se muitos de nós conhecem a origem cita da palavra Amazonas e a identidade de quem assim o batizou (o rei espanhol Carlos I), bem menos gente sabe que, além de Rio Grande e Mar Dulce, o Amazonas também foi chamado de Rio da Canela. E a Amazônia, por conseguinte, de País da Canela.

Atrás da cobiçada especiaria cingalesa, também abundante naquela região segundo a lenda, aventureiros e emissários reais viraram comida de onça, piranha e silvícolas. Baseado nos relatos que testemunhas oculares como o frei dominicano Gaspar de Carvajal legaram aos pósteros, William Ospina escreveu O País da Canela, segundo volume de uma trilogia sobre as primeiras viagens dos conquistadores ibéricos pelo Amazonas no século 16, prêmio Rómulo Gallegos de Ensaio em 2009. O anterior, Ursúa, publicado quatro anos antes, tampouco foi traduzido aqui.

Apesar de protagonista do segundo volume, Orellana é, cronologicamente, o primeiro "herói" da trilogia. Em vez de ir só atrás da canela, como seu chefe Gonzalo Pizarro (meio-irmão mais jovem de Francisco Pizarro, conquistador do império incaico), Orellana enfrentou mil e um perigos, inclusive as flechas venenosas das icamiabas, as guerreiras da Amazônia (e futuras "destinatárias" daquela satírica carta de Macunaíma), na tentativa de descobrir e subjugar Akator, a mítica Cidade de Ouro, vulgarmente conhecida como Eldorado. É uma proeza lato sensu fabulosa, iniciada em Quito e fermentada por uma traição, que terminou em novembro de 1546, quando Orellana morreu refazendo o caminho inverso, a partir da foz do Amazonas.

Vinte anos depois da expedição de Orellana, veio a de Pedro de Ursúa, que cometeu dois erros: levar a bordo de seu bergantim a mulher mais bonita do Peru, a mestiça Inês de Atienza, com suas donzelas, e o nada confiável Lope de Aguirre, que afinal sublevou a tripulação, provocando a morte de Ursúa e Inês. Essa sangrenta aventura deu início ao ciclo literário de Lope de Aguirre, inspiração de inúmeros poetas e cronistas (destaque para o jesuíta equatoriano Juan de Velasco e para o sevilhano Juan de Castellanos, autor do poema mais extenso da língua espanhola, Elegías de Varones Ilustres de Índias), escritores (Ramón J. Sender, Miguel Otero Silva), historiadores (Ospina, Cristóbal de Acuña) e até cineastas (Werner Herzog e Carlos Saura).

Os filmes chegaram até nós, e pelo menos o de Herzog (Aguirre, A Cólera dos Deuses) circula agora em DVD; dos livros, porém, só encontrei o de Acuña, Novo Descobrimento do Grande Rio das Amazonas, 1641, traduzido pela Agir 17 anos atrás, já esgotado.

Atrás de Eldorado também veio o coronel britânico Percy Fawcett, já no século passado, quando exploradores e arqueólogos haviam tomado o papel dos conquistadores. Instigado pelo documento de um anônimo bandeirante do século 18 sobre a existência de uma cidade de ouro no meio da floresta, Fawcett desapareceu misteriosamente em 1925, sem achar a sua "lost city of Z". Em 1952, o então repórter Antonio Callado foi ao Xingu verificar se uma ossada lá encontrada era mesmo do coronel (não era), resultando dessa incursão uma bela reportagem ensaística, Esqueleto na Lagoa Verde, editada pela Cia. das Letras, que também traduziu Z, A Cidade Perdida, do americano David Grann, prestes a virar filme com Brad Pitt no papel de Fawcett.

A literatura do labirinto amazônico é um amplo diálogo de mitologias, que começa na antiga Grécia (com o mito das amazonas) e termina em Hollywood (com Indiana Jones e seu "muiraquitã" de cristal, em forma de caveira, não de jacaré). Com heróis e vilões reais e imaginários, sucessores de Orellana, Ursúa e Aguirre, entre os quais se sobressai a figura de Luís Galvez, autoproclamado "imperador do Acre" na virada do outro século, nenhuma outra selva atraiu tantos visionários, predadores, estudiosos (o naturalista berlinense Alexander von Humboldt, o etnólogo alemão Theodor Koch-Grünber, que inspirou Mário de Andrade a escrever Macunaíma, o antropólogo canadense Wade Davis, autor da mais caudalosa história do rio, One River) e influenciou tantos artistas (de Julio Verne a Vargas Lllosa, passando por Villa-Lobos, Rómulo Gallegos e os demais já citados).

Davis teve seu esplêndido ensaio sobre o vodu no Haiti, A Serpente e o Arco-íris, editado pela Zahar em 1986, mas One River, já no Kindle por US$ 11.99 e há tempos acessível em língua espanhola, permanece inédito na língua de Ceci. Nesse limbo acumulam-se obras que Ospina considera fundamentais para um melhor entendimento do multilinguístico e superlativo mundo que espanhóis e portugueses encontraram entre as geladas montanhas andinas e as águas do Atlântico e tentaram dominar a ferro e fogo, obras que nunca lemos e provavelmente nunca leremos.

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