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O grande Pequeno

Evandro Pequeno. Já ouviu falar? Eu não, até que me metesse a contar a vida do não menos fabuloso Jayme Ovalle

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

26 de maio de 2015 | 02h00

Diante do que aí está, e não é de hoje que está, dá vontade às vezes de me converter num sueco em trânsito, sem nada a ver, por isso, com as perebas da brasilidade. 

O achado, infelizmente, não é meu; trata-se de uma das pepitas verbais da extraordinária figura que foi Evandro Pequeno. Já ouviu falar? Eu não, até que me metesse a contar em livro a vida do não menos fabuloso Jayme Ovalle. Os dois, aliás, camaradas de vagabundagem inteligente no Rio de 90 janeiros atrás, tinham muito em comum, sobretudo o fato de esbanjarem na conversa seus talentos perdulários. Boa parte das faíscas produzidas por Ovalle não teria chegado a nós não fosse o acaso de estarem por ali amigos como Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino, dispostos a assumir as funções de Ruth, a personagem bíblica que, no rastro dos ceifadores, vai recolhendo as espigas de trigo que eles deixam no caminho.

Coisa muito parecida se deu com Evandro Pequeno, cearense carioquizado em cujas pegadas trafegou um cortejo de Ruths de que fizeram parte, entre outros, Murilo Mendes, Rachel de Queiroz e Mário Pedrosa, além de Rubem Braga, a quem devemos o “sueco em trânsito” não ter ido para o ralo. 

Ao contrário de Ovalle, porém, empapado de arte mas praticamente incapaz de botá-la para fora, tão deficiente era a sua formação, o jornalista, funcionário público e tradutor Evandro – pequeno no físico, além do sobrenome, pois não media mais de 1,65 metro – era homem culto, apto a se desempenhar em seis ou sete idiomas. Seus conhecimentos de fonética comparada, atesta Murilo Mendes, “permitiam-lhe identificar o som e a entonação exatas até mesmo nas línguas indo-europeias que não conhecesse perfeitamente”. 

Mas não era apenas um poliglota afiado: homem de quatro instrumentos em sentido literal, tocava piano, violoncelo, oboé e fagote, tendo integrado como fagotista a Orquestra Sinfônica Brasileira. A esse pendor musical, anotou Murilo, Evandro juntava um talento histriônico de “grande ator sem palco”, dono de “um raro dom parodístico e mímico”. 

Amostras disso era o que não faltava. Numa roda em que estava Mário Pedrosa, ele “tocou”, de boca, uma rapsódia húngara com sotaque português, para ilustrar o som expelido pelo “piano vagabundo, sem cauda, das velhas famílias brasileiras”. O incrível, segundo Pedrosa, é que o número era fiel tanto às sonoridades do piano desafinado quanto ao espírito da música de Liszt. 

Murilo Mendes via nele um Charles Chaplin, um Buster Keaton sem cinema, humorista capaz de inventar, além do piano com sotaque lusitano, absurdos hilariantes como eleições para presidente deposto e uma fórmula para envenenar membros da Academia de Letras com verbos e adjetivos extravagantes. Bolava, escreveu Pedrosa, “anedotas que acabavam fazendo a volta ao Rio e ao Brasil, para ir ter de novo a ele, com mil variações”.

Performático, nem por isso Evandro Pequeno foi um exibido. Seu território, delimitou Murilo, era o da timidez, do desprendimento, da não-industrialização da inteligência. Sentia-se mais à vontade ante plateias magras. “Não sou homem de plenário”, explicava, “sou homem de comissão.” Muito espirituoso, confirmou a mim sua viúva, a musicóloga Mercedes Reis Pequeno, “mas só em petit comité”. 

Em tais ocasiões, esparramava-se em travessuras como tirar efeito humorístico de traduções literais. William Shakespeare, lembra Rachel de Queiroz, virava “Guilherme Balança-as-Peras”. Fez rir essa amiga ao lhe contar do tempo em que ia às putas e, desmonetizado, passava aperto: “Eu só tinha dinheiro para pagar uma tão feia, mas tão feia que, para me inspirar, precisava olhar para as minhas próprias pernas...”.

Embora anarquista, Evandro Pequeno encheu-se de entusiasmo quando veio a Revolução de 1930 – para logo se desiludir com os rumos que o movimento foi tomando, ao ponto de imaginar uma “Liga Contra o Brasil”. Seu sonho era ver nosso país invadido pelo “exército vermelho do Paraguai”. Produziu também o “bananismo”, macunaímica teoria segundo a qual os brasileiros, como único recurso para não fazerem bobagem, deveriam limitar-se a permanecer na rede, a comer banana. 

Tanto tempo depois de sua morte, em 1959, aos 62 anos de idade, é razoável supor que Evandro Pequeno, diante do que aí está, trataria de desarquivar o bananismo e reivindicar, em caráter definitivo, o status de sueco em trânsito.

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