Águeda Amaral/Divulgação
Águeda Amaral/Divulgação

'O Grande Inquisidor', mais um Dostoievski nos palcos

Rubens Rusche e Celso Frateschi encenam a peça cujo texto foi retirado do romance 'Os Irmãos Karamazov'

15 de abril de 2010 | 19h55

BETH NÉSPOLI - SÃO PAULO - É a hora e vez de Fiodor Dostoievski nos palcos. O Idiota, em cartaz no Sesc Pompeia sob direção de Cibele Forjaz, está entre os espetáculos mais mobilizadores em temporada na cidade. Permite compreender, racionalmente e sensivelmente, como esse autor russo foi fundo na prospecção da alma humana. Cada personagem que surge diante dos nossos olhos está tomado por vários e contraditórios sentimentos, é capaz de praticar um ato sublime e outro de abjeta baixeza no instante seguinte, e o espetáculo permite detectar os impulsos que os movem e identificar neles algo dentro de nós mesmos. E mais, duas éticas são postas o tempo todo em embate: de um lado ações movidas pelo desejo de poder e dinheiro, um apelo social, externo e amesquinhado e, do outro, atitudes impulsionadas por um sentimento de honra e dignidade muito profundos, desses que dão sentido à existência sobre a Terra.

 

Com suas sete horas de duração divididas em três noites de espetáculo, O Idiota pode assustar os que temem passar tanto tempo no teatro, embora talvez em nenhum outro espaço o tempo seja tão relativo quanto na plateia teatral, onde três horas podem parecer 15 minutos ou o oposto disso. Pois para quem ainda resiste à duração, mas deseja vivenciar uma transposição cênica da obra de Dostoievski, estreia nesta sexta, 16, no Ágora uma montagem que tem tudo para ser menor só na duração, 55 minutos, e alcançar a mesma qualidade, ou seja, trazer à tona uma multiplicidade de questões humanas - o solo O Grande Inquisidor.

 

A aposta pode ser feita pelos artistas envolvidos na montagem. Esse texto, uma narrativa retirada do romance Os Irmãos Karamazov, será interpretado por Celso Frateschi, sob direção de Rubens Rusche. Frateschi já conseguira levar ao palco com rara felicidade um conto de Dostoievski, Sonho de Um Homem Ridículo, texto à primeira vista bem pouco teatral. É de se imaginar que possa tirar ainda muito mais proveito de O Grande Inquisidor cuja carga dramática já atraiu dezenas de atores e diretores, entre eles Patrice Chèreau, Peter Brook e, no Brasil, Domingos Oliveira. Rusche é um ‘homem culto’, de sólida e ampla formação filosófica, que domina seu métier, como mostrou em montagens como Fim de Jogo, de Beckett, e Ânsia, de Sarah Kane.

 

Juntos, eles vêm há meses trabalhando sobre O Grande Inquisidor e, pelas entrevistas de ambos ao Estado, podem surpreender até quem conhece o texto. Dostoievski ambienta no século 16 essa narrativa feita pelo personagem ateu Ivam Karamazov ao seu irmão Aliocha, um noviço. "À primeira vista é um libelo anticlerical e pode ser lido assim, porém o desafio é trazer as outras questões à tona", diz Frateschi. Em síntese, o texto flagra o encontro de um cardeal Inquisidor com Jesus numa cela de prisão. A cidade está tomada por fogueiras, cerca de cem hereges serão queimados publicamente, "um evento" a um só tempo medonho e excitante. Nesse dia Jesus volta à Terra. É reconhecido, começa a ser seguido pela multidão, faz milagres. Seus feitos chegam aos ouvidos do Inquisidor que manda prendê-lo e, na madrugada, vai vê-lo na cela.

 

Diante do olhar terno do prisioneiro silencioso ele faz um discurso no qual reconhece a distância entre o cristianismo em sua essência e a instituição da qual é poderoso representante. Mas justifica esse ‘desvio’ como necessário. Relembra as tentações no deserto, nas quais Jesus se negou a fazer milagres para que os homens escolhessem o caminho do bem sem serem conduzidos a isso pelo pão, pelo medo ou ‘efeito’, para argumentar que a maioria dos homens é frágil, covarde e não suporta o peso do livre-arbítrio. Em síntese, ele diz que Deus só ama uns poucos eleitos, ao passo que ele sim ama os fracos. "E joga os que se rebelam, os fortes, na fogueira", observa Rusche.

 

Revisão. O texto permite a leitura anticlerical e a de cunho político. "A argumentação do Inquisidor é fonte de regimes totalitários, sejam de esquerda ou direita", diz Rusche. Mas há outra camada, mais difícil de trazer à tona, sobre a qual Frateschi e Rusche trabalham. Esse cardeal, aos 90 anos, está próximo da morte. Essa aparição, não importa se é mesmo Jesus ou não, provoca uma revisão em sua vida. Afinal, um dia ele jejuou no deserto, foi jovem e idealista, acreditou na essência do cristianismo e agora tenta justificar o rumo tomado. "É legítimo perguntarmos: por que ele sacrificaria sua própria alma em nome de uma raça pela qual sente profundo desprezo? Esse é o paradoxo que mais salta à vista." De certa forma, o poderoso Inquisidor se depara com a sua fragilidade diante do livre-arbítrio. Poderia ter escolhido outro caminho. Rendeu-se?

"Seja por sobrevivência, comodismo ou pelo jogo da vida as pessoas tomam caminhos que as embrutecem." Um dia vem a crise. No Ágora, Mauro Schames assume o difícil papel de espelho silencioso para o Inquisidor.

 

O Grande Inquisidor - Teatro Ágora. R. Rui Barbosa, 672, 3284-0290. 6ª e sáb., 21h30; dom., 20 h. R$ 30. Até 27/6

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.