O grande efeito é a pessoa

Atriz de O Garoto da Bicicleta vê no filme a força do humanismo dos irmãos Dardenne

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2011 | 03h07

Era uma história que perseguia Jean-Pierre e Luc Dardenne. Eles próprios contaram na entrevista ao Estado. "Terminou se impondo. Uma mulher ajuda um garoto a sair da violência que ameaça devorá-lo. A primeira imagem era sempre a do garoto, uma bola de nervos, agraciado e pacificado pela bondade natural de outro ser humano." Esse outro ser humano tomou a forma de Cécile de France em O Garoto da Bicicleta, que estreia na sexta. Em Cannes, a estrela contou como foi trabalhar com os irmãos vencedores de duas Palmas de Ouro, por Rosetta e A Criança.

Como foi o convite para

fazer O Garoto?

Foi tudo muito rápido e surpreendente. Não apenas como belga, mas como qualquer pessoa na indústria do cinema, estaria passando atestado de desinformação se não soubesse quem são os Dardennes. Pelo método deles, jamais me passou pela cabeça que um dia me chamassem e oferecessem um papel, ainda mais um papel tão lisonjeiro. Mas eles me explicaram por que precisavam de mim, e eu teria sido uma tola se não aceitasse na hora.

E por que eles precisavam?

Porque queriam evitar a psicologia. A estranha resolve ajudar o garoto, e pronto. Sem nenhuma explicação prévia nem a posteriori. Para que o espectador aceitasse isso, Jean-Pierre e Luc me disseram que precisavam de alguém especial, que trouxesse uma história para o papel, independentemente do personagem. Pensaram em mim, e aqui estou.

Foi uma rodagem tranquila?

Tranquila em relação à de Além da Vida, de Clint Eastwood, que me levou a três continentes e me obrigou a um esforço físico muito grande, inclusive contracenando com efeitos especiais. Para os Dardennes não existe outro efeito que não a pessoa humana. Mas eu tenho de assumir que não foi fácil para mim. Muitas vezes eu suplicava por uma orientação. Por que ela faz isso? Muitas vezes eles me pediam para expressar a emoção como se fosse uma página branca. Como se faz isso? Houve momentos em que duvidei, mas eles me tranquilizavam. Foram ótimos. Creio que só entendi o que queriam ao ver o filme pronto.

Você tem uma carreira eclética. Filmes comerciais, de arte. Como escolhe os papéis?

Para início de conversa, essa é uma divisão que só existe para a imprensa, e os críticos. O Garoto da Bicicleta é um filme de arte. Além da Vida seria um filme comercial? Mas o que é um filme comercial? O de Clint não foi nada bem nos EUA, embora tenha acrescentado prestígio a ele, no restante do mundo. Além da Vida também é de arte, portanto? Por esse raciocínio, a reação do público, creio que Um Lugar na Plateia, sim, é comercial, mas gosto tanto do papel, e do filme de Daniele (Thompson), que ficaria triste se você me dissesse que não tem valor artístico nenhum. Para mim, tem.

Como é estar em Cannes,

no tapete vermelho?

Não seria a mesma coisa, se não estivesse num filme no qual acredito tanto. Está sendo um privilégio.

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