O grande confronto renascentista

Mostra no CCCB vai colocar lado a lado escolas antagônicas, a romana, mais intelectual, e a veneziana, mais sensual

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h10

A decisão não poderia ser mais acertada. Os cinco curadores da mostra Mestres do Renascimento, que será aberta dia 13 de julho no CCBB de São Paulo, resolveram abrigar os cinco núcleos em três andares diferentes, separando florentinos, romanos e venezianos do resto da turma. Isso significa que o subversivo Michelangelo, contestador do idealismo clássico e atuante em Roma no século 16, vai ficar longe de Rafael, que, em Florença, deu forma definitiva ao ideal de harmonia perseguido pelo Renascimento italiano (veja a pintura principal desta página, 'Cristo Benedicente', de 1506). A exposição, que será precedida de uma introdução didática ao público logo à entrada, representa assim uma oportunidade única de entender a evolução desse movimento artístico - o mais influente do Ocidente - ao qual estão ligados nomes históricos como Da Vinci, Tintoretto, Lotto, Veronese e Ticiano, entre outros representados na mostra, apresentada em primeira mão pelo Estado.

Definir o que foi o Renascimento italiano é tarefa ingrata - dificuldade reconhecida até por historiadores como Fernand Braudel, por suscitar confusão entre o que foi o pré-Renascimento (ainda no século 15), o primeiro Renascimento (em Florença) e o segundo Renascimento (em Roma). No entanto, a exposição foi organizada de modo que o público possa entender como a Europa do século 16 abandonou as formas da Idade Média e da primeira modernidade, marcada pelas grandes navegações, em troca de um ideal de beleza, equilíbrio e harmonia que, algumas vezes - no caso de Michelangelo, por exemplo - levou artistas ao desespero pela ruptura com estilos e escolas antigas.

Doença de estilos. O historiador e crítico Herbert Read dizia do gênio toscano que pintou a Capela Sistina que Michelangelo, ao criar seus titãs no teto do templo, "travou uma luta que sabia ser vã contra a onipotência divina" - daí o corpo atormentado de seus personagens. Read concluiu que, ao contrário da escola romana e florentina, a veneziana foi a única que conservou sua vitalidade - as outras teriam sido afetadas pelo que chamou de "doença de estilos", espécie de neurose renascentista provocada pelo sentimento de ser "esmagado" pela autoridade dos mestres. Não que representantes da escola veneziana deixassem de ser igualmente afetados. Tintoretto, que tem na mostra o vigoroso Uccisione di Abele (1550-1552), um óleo com quase dois metros de largura, traduz uma indisfarçável obsessão por Michelangelo, mas seus heróis se contorcem e são vencidos pela força da natureza, tragados pela atração pelo abismo.

Michelangelo tinha também essa vontade de poder. No entanto, era cristão e exprimia essa contradição em sua obra. Para a mostra não virão desenhos ou esboços de pinturas, mas um estudo a lápis e bico de pena pertencente à Casa Buonarroti de Florença. Read dizia dele que era o "espírito mais florentino entre os artistas do Renascimento" - e esse estudo sobre a fortificação da Porta al Prato di Ognissanti (1529-1530) revela a razão de a pintura de Michelangelo, que tinha a cabeça de um arquiteto, ser a transposição de volumes para a superfície.

Do rival Leonardo da Vinci virá para a mostra um óleo muito popular pertencente ao acervo da Galeria Borghese, de Roma, Leda e o Cisne (1510-1515), talvez o primeiro nu do pintor, que mostra a sensual rainha de Esparta (Leda) apertando o pescoço de um fálico cisne - a transfiguração de Zeus. Esse erotismo não era tão típico dos florentinos, e sim dos mestres que elaboraram a arte veneziana do século 16, como Bellini, Ticiano e Giorgione, os três também presentes na mostra do Renascimento italiano. Bellini e Giorgione, porém, estão representados na exposição do CCBB por cenas sacras (o primeiro com uma Anunciação e Ticiano com um retrato de Madalena, pintado entre 1550 e 1555 e reproduzido nesta página).

Não foram só os representantes da escola veneziana mais inclinados aos prazeres terrenos que ao conhecimento intelectual. O florentino Pontormo, cujo óleo Madonna con Bambino (1510-1519) pode ser visto nesta página (foto menor à direita), ficou conhecido por sua visão heterodoxa de cenas bíblicas, que em suas mãos se transformavam em imagens lisérgicas, como a do Juízo Final. No óleo que está na mostra é possível identificar traços da primeira fase do maneirismo florentino.

Houve quem ignorasse o fenômeno maneirista, mas não Paolo Veronese, que está representado na mostra por uma alegoria da batalha de Lepanto (1573), do acervo da Accademia de Veneza. Grande decorador, o pintor de Verona mostra a razão de ter sido perseguido pela Inquisição, que não entendia bem essas suas alegorias em que o profano e sacro se cruzam. A mostra italiana traz ainda obras de Mantegna, Perugino e Crivelli. Imperdível.

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