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Lúcia Guimarães
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O golpe do plutocrata

Um site de fofocas, um asqueroso ex-campeão de wrestling e um bilionário arrancado do armário de sua sexualidade são protagonistas de uma disputa que pode restringir a liberdade de imprensa nos Estados Unidos. No país onde a Primeira Emenda da Constituição é um farol internacional de garantia da expressão livre, um dos mais lendários capitalistas do Vale do Silício decidiu que quer processar até a morte uma companhia de mídia com 300 empregados. Trata-se de um site, Gawker, vastamente detestado, inclusive por esta colunista, por publicar detalhes da vida privada sob a hipócrita desculpa de que são de interesse público. Mas toda antipatia pelo site e seu untuoso fundador Nick Denton não deve impedir um exame do ataque à imprensa que está em curso.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2016 | 03h00

Recapitulando: O Gawker publicou online, em 2012, um vídeo do ex-lutador Hulk Hogan transando com a mulher de um amigo. Hogan protestou e processou Gawker por US$ 100 milhões. Ganhou US$ 140 milhões! Na semana passada, foi esclarecido o mistério do time caríssimo de advogados à disposição de Hogan - eram pagos por Peter Thiel, fundador do PayPal e um dos primeiros investidores do Facebook. Ele tentou se esconder, queria que o público acreditasse na pureza da justiça para Hogan.

Em 2007, o hoje extinto Valleywag, um dos sites sob o guarda-chuva da companhia Gawker, publicou uma nota dizendo que Peter Thiel era gay, tinha namorado, mas queria se esconder porque o Vale do Silício seria um ambiente pouco hospitaleiro. Thiel saiu do armário dois anos depois, mas nunca parou de planejar sua vingança. Além de financiar o processo milionário de Hogan, saiu atrás de outros ofendidos pelos site de Nick Denton para mover ações milionárias na justiça.

Numa entrevista ao New York Times, Thiel disse que os US$ 10 milhões que gastou com Hogan foram um dos melhores investimentos em filantropia da sua vida. Ele acha que foi eleito como o homem de bem para fechar o Gawker. Thiel é brilhante, não se discute, mas também um libertário, investidor e adepto de projetos lunáticos como construir cidades flutuantes para seus moradores não pagarem impostos nem obedecer a um governo central. Ele é o único capitalista proeminente do Vale do Silício a fazer campanha por Donald Trump – mais do que isso, ele será delegado de Donald Trump pela Califórnia na Convenção Republicana. Como todo contraditório, Thiel achou por bem doar dinheiro ao Comitê de Proteção aos Jornalistas.

Mas Thiele quer eleger um presidente que já prometeu explorar leis de restrição à mídia e odeia a liberdade de imprensa. Quando um conhecido repórter escreveu que Trump infla o valor de sua fortuna – é notório por isso - foi inundado com processos afinal considerados frívolos.

O dinheiro fala. Não emite sons, mas tem voz. Quem duvida, deve conferir a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que, em 2010, derrubou o limite de doações para campanhas políticas firmando a nefasta jurisprudência sobre o dinheiro como liberdade de expressão. Sim, esta eleição presidencial é atípica, o fartamente financiado Jeb Bush nunca decolou como candidato. Mas Trump, além de começar com autofinanciamento já está atraindo poder de fogo em doações.

Há vários sinais vermelhos no exemplo de Peter Thiel. Ele tem assento no comitê diretor do Facebook, o website que é a maior fonte de notícias do planeta e um bully acostumado a obter concessões de companhias de mídia tradicionais.

Se Mark Zuckerberg não tirar Thiel da gestão do Facebook, vai demonstrar o que pensa da liberdade de expressão e do uso de seus bilhões. Como afirma o jornalista econômico Felix Salmon, Thiele acaba de dar o mapa da mina para qualquer plutocrata que queira fazer um investimento modesto e usar a Justiça norte-americana para colocar uma empresa de joelhos

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