Antonio Milena/Estadão
Antonio Milena/Estadão

O golpe da mortadela

Fraudaram um símbolo da gastronomia, o sanduíche do Mercadão

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2022 | 03h00

Comerciantes passam dos limites e fraudam um símbolo da gastronomia paulistana, o sanduíche de mortadela do Mercadão, clássico com 400g do embutido, do qual nos orgulhamos, levamos amigos estrangeiros e nos deliciamos. Aí já é demais...

Ao ser descoberta pelo Procon, que encontrou dentro do pão francês uma marca diferente da anunciada, somada à fraude das frutas, em que ao cliente era oferecida uma, mas levava outra, um símbolo de São Paulo deu lugar à estúpida ganância.

Onze barracas foram autuadas. O presidente do conselho da concessionária multou cinco comerciantes. Inaugurada em 1933, a obra neoclássica do arquiteto Ramos de Azevedo, que representa a metropolização da cidade, recebe 70 mil pessoas por semana. Recebia. O movimento caiu com o escândalo, o que me dói na alma. 

Minha família cresceu no seu entorno e viveu dele. Meu avô José Facciolla negociava arroz beneficiado. Seu armazém ficava na rua em frente. Minha mãe e irmãs moraram na parte de cima. 

O pai dele, Vito Facciolla, foi um dos fundadores, em 1923, da Bolsa de Cereais. Os produtos chegavam em trens a São Paulo, na Estação do Pari. As primeiras reuniões para compra e venda eram ao ar livre, ao sabor das intempéries. Nasceu o Centro do Comércio de São Paulo. 

Comerciantes do Brasil todo vinham de caminhão, “aranha” ou charrete para vender e distribuir comida ao País. Corretores e operadores escreviam boletins diários de cotações. Sócios desenvolviam programas de ação para formar fiscais e promover o desenvolvimento da agricultura, como órgão consultor de governos. O brasão foi bolado pelo poeta Guilherme de Almeida. 

O cinismo da cobiça foi destruindo a cidade mal administrada. O Parque Dom Pedro, um Ibirapuera no centro histórico, não existe mais. Foi transformado em terminal de ônibus, estação de metrô e base para colunas dos elevados que o cruzam. 

Tudo ao redor cheira a fedor. O Tamanduateí está imundo. Cobriram parte do rio com uma via expressa. O Rio Ipiranga virou esgoto. A Independência foi proclamada ali. O Museu do Ipiranga, o mais importante da cidade, ficou fechado nove anos. 

Independência de quem? O Brasil do Grito do Ipiranga tinha uma imensa população escravizada. Enquanto a América Espanhola se fragmentava, Europa e EUA aboliam a escravidão, traficantes brasileiros enriqueciam. 

A família real morou na casa de um traficante na Quinta da Boa Vista. O pacto da monarquia e proprietários de terra foi lucrativo: sem escravizados, o mundo precisava de commodities brasileiras, como café, açúcar, tabaco, couro. Exportaremos riquezas com trabalho forçado. Fraudes inspiram fraudes.  

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