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O glamour pelas lentes de Manzon

Da 'Aparência à Realidade' reúne 20 imagens oníricas do fotojornalista francês que revolucionou o gênero no Brasil

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO,

04 de maio de 2011 | 06h00

Com o lema "Não existe mercado da fotografia sem cultura fotográfica", a Fass (Fotografia Histórica e Autoral), escritório cultural criado pelos fotógrafos Pablo de Giulio e Monica Vendramini, em 2007, acaba de inaugurar sua galeria (Rua Rodésia, 26 - Vila Madalena) com exposição do fotojornalista francês Jean Manzon (1915-1990), Da Aparência à Realidade. São 20 imagens - com curadoria de Diógenes Moura - que apresentam os desfiles de moda no Hotel Copacabana Palace nas décadas de 1940-50, retratos e 10 vintages da época.

 

Uma época na qual o glamour está na própria situação, no desfile, a cena e as pessoas são charmosas e à arte fotográfica só cabe enfatizar tudo isso, sem tantos artifícios ou adereços, embora Manzon fosse adepto deles (os artifícios).

 

Jean Manzon veio ao Brasil no começo da década de 1940 para trabalhar no DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Getúlio Vargas). Foi lá que ele conheceu o sobrinho de Assis Chateaubriand que o convidou a trabalhar na revista O Cruzeiro. Com experiência nas grandes revistas ilustradas como a Vu, Paris Soir e Paris Match, ele revolucionou o fotojornalismo brasileiro, até então preso a padrões bem convencionais, modernizou essa estética e trouxe reconhecimento para a profissão de repórter-fotográfico. Lendárias são suas reportagens com David Nasser (1917-1980), assim como muito discutível era sua maneira de construir imagens, sem pudor, sem se importar com o fato em si ou com a manipulação imagética. Polêmicas à parte, é a ele que, sem dúvida, devemos a transformação da reportagem fotográfica.

 

Mas são as fotos da aparência das celebridades, do mundo do pós-guerra, que a Fass nos apresenta: "Jean Manzon trabalha no limite da aparência e da memória", comenta o curador. As suas imagens têm sempre uma iluminação cinematográfica, uma gramática imagética que celebra não só o fotografado, mas a imagem em si. Luzes muito bem construídas, poses estudadas, olhares milimetricamente escolhidos. Como se fossem fotogramas de filmes. Imagens oníricas. Um único porém destoa da elegância pretendida - sim, as fotos são elegantes -, é a parede rosa-choque, que agride e interfere na leitura das imagens, levando em consideração que elas precisam ser vistas com atenção, cuidado e contemplação. Coisa que não acontece já que a cor nos cansa de imediato. Um mero detalhe, porém fundamental.

 

Mesmo assim, foi acertada a escolha da Fass para iniciar seu programa de exposições. Já conhecida por sua participação na SP/Arte e na SP/Arte-Foto, ela nasceu com a ideia de preservar a memória da fotografia latino-americana das primeiras décadas do século 20, além de representar fotógrafos ativos das décadas de 1930 a 1960. Além de Jean Manzon, a Fass também representa a argentina Annemarie Henrich (1912-2005), retratista do início dos anos 20 em Buenos Aires, o baiano Voltaire Fraga (1912-2006), o português radicado no Brasil Fernando Lemos, (1926) os peruanos Martin Chambi (1891-1973) e Irmãos Vargas, Carlos Vargas (1895- 1979) e Miguel Vargas (1897- 1976).

 

Interessada na difusão e conhecimento da cultura fotográfica, a Fass tem como objetivo colaborar com o aprimoramento do mercado da fotografia no Brasil. Parece que começaram bem.

 

* QUEM É

Jean Manzon, fotógrafo francês

Fugindo da Segunda Guerra, Manzon (1915-1990) chegou ao Rio em 1940 e se tornou o fotojornalista preferido de Getúlio Vargas. Polêmico, ficou conhecido pelos documentários que enalteciam o governo durante a ditadura.

 

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SERVIÇO:

JEAN MANZON

Fass Galeria. Rua Rodésia, 26,

V. Madalena, telefone 3262-1719.

10 h/ 19 h (sáb., 11 h/ 15 h; fecha dom.). Grátis. Até 28/6.

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