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O gesto mais nobre

É dramático imaginar que alguém possa se opor à doação de órgãos

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

24 de novembro de 2019 | 03h00

Quando eu presenteio quem eu amo, recebo um sorriso, um possível obrigado, provoco a chance de receber um presente em retribuição, cultivo afetos, ganho “pontos” com a pessoa e, em todo caso, sou amplamente recompensado. Um presente é sempre lindo. 

Todas as religiões destacam que a verdadeira caridade está em ofertar sem aguardar nada em troca. O que a mão direita ofertar a esquerda não poderia saber, diz Jesus. Aristóteles fala da capacidade de fazer o bem sem testemunhas, sem retribuições, como um exercício de felicidade em si. Dar porque isso melhora a mim e ao mundo, ofertar sem contrapartida, entregar-se sem placa de bronze ou sorrisos: para filósofos e teólogos, eis um caminho para o valor mais elevado.

Quase todos temos um valor enorme ao final da vida: o corpo. Quando se encerra a existência biológica, seus órgãos (coração, fígado, pâncreas, pulmão, rim) e seus tecidos (pele, etc.) podem salvar a vida de pessoas. Sua córnea pode devolver a visão de alguém. De um lado, a opção de enterrar ou queimar algo valioso, de outro, a chance de beneficiar muita gente. Como é possível existir a dúvida? 

Há casos de doadores vivos. Você pode doar seu rim para um parente, bem como parte do fígado, parte do pulmão e parte da medula óssea. É uma decisão dramática e de imensa generosidade. Para não parentes, a legislação prevê uma autorização judicial, provavelmente para evitar o infame comércio de órgãos humanos, bastante ativo. A vida é possível para quem doa alguma parte de si em vida. O papa Francisco vive com apenas um pulmão e ninguém pode dizer que ele tem uma existência medíocre ou limitada. 

O mais dramático é imaginar que alguém possa se opor à doação de alguém com morte cerebral constatada por especialistas ou outra morte. Alguns confundem coma (algo que pode ser revertido) com morte encefálica (irreversível). Os critérios para morte encefálica são rigorosos e determinados de forma técnica. Não dependem da subjetividade ou do humor do momento, a morte encefálica é bastante precisa. Assim, antes de um colapso cardiorrespiratório, a quantidade e qualidade dos órgãos ajuda mais gente. Ajuda devolvendo qualidade de vida para muitos (um novo coração ou uma córnea) e ajuda salvando uma vida de, por exemplo, um paciente em colapso hepático. 

O medo não é um bom conselheiro. O sentido humanitário é mais forte do que um receio sem base. Você tem mais de 18 anos, tem saúde e preenche as condições básicas de peso? Doar sangue regularmente é fundamental. Ao escrever essas linhas constatei, um pouco envergonhado, que não faço doação de sangue há vários anos. Voltarei a fazer. Existe a condição especial de um parente amado necessitar de um rim. É uma decisão possível e complexa. Cada caso é um caso. Por fim, manifestar aos parentes, eventualmente registrar por escrito, dizer para todos que o cercam que seu desejo é que tudo, literalmente tudo que possa ser útil para outro ser humano, deve ser aproveitado. Todos temos medos e egoísmos, seria bom não levá-los para o túmulo ou para as chamas. É, para mim, o gesto mais nobre: irei beneficiar quem eu não conheço. Meu coração pode pulsar em outra pessoa, meu fígado pode ajudar um ser humano com problemas, meus olhos continuarão vendo o mundo. É um gesto extraordinário. A vida é o valor maior, sempre. Você é religioso? Acredita que Deus deseja que sua córnea apodreça rapidamente do que ajude outra pessoa? Você não é religioso? Acredita apenas na matéria e no fim de tudo? Argumento perfeito: que a matéria continue existindo com vida e sendo solidária. Para você tanto faz? Nada a condenar: basta deixar para aqueles que estão longe da sua indiferença. Sua vida está horrível? Ajude a vida de quem necessita desesperadamente continuar. Manifeste sua vontade. Supere seu egoísmo ou seu medo. A vida é o valor maior, sempre. 

O extraordinário de doar vida na forma de órgãos e de tecidos é que, em muitos casos, nem sabemos quem será beneficiado. Algumas pessoas podem doar um rim em vida para um parente e isso é muito bom. Porém, doando após a vida, beneficia-se alguém que nunca encontramos, que jamais poderá nos dizer pessoalmente obrigado, tornando-se, assim, o modelo mais elevado de compaixão desinteressada e de uma beleza intensa. São pedaços de esperança, partes de uma semente que ficará mais tempo funcionando.

Seu corpo é seu e sua vontade é soberana. E se hoje você manifestasse no grupo de celular da família seu desejo? E se mais gente da família tivesse a chance de saber. Nesse caso, ocorreria um novo fenômeno relacionado à doação. Aquele que receberá vida de você não poderá agradecer. Todavia, seus familiares e amigos saberão que há vida dentro de você e que existe a preocupação com os outros e que, enfim, a solidariedade brilhou. Quem sabe se, com o gesto de manifestar sua vontade de doar o coração, enfim, todos percebam que você tem um e que ele é bonito. Boa semana para todos aqueles que possuem um coração e muito boa sorte para aqueles que necessitam de outro.

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