O gênio e o perdão - a grandeza poética de um mestre

Análise: Lucia Santaella

LUCIA SANTAELLA É PROFESSORA TITULAR, COORDENADORA DO MESTRADO, DOUTORADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA, DESIGN DIGITAL DA PUC-SP, AUTORA DE CORPO, COMUNICAÇÃO. SINTOMA DA CULTURA (PAULUS), O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2012 | 02h40

Há muitos anos, em conversa informal, Augusto de Campos declarou que Décio Pignatari era um gênio escarrado a quem quase tudo se perdoa. Quando Pignatari completou 60 anos, Campos lhe dedicou um profilograma: "(...) teu coração carbonário/capaz de pedra/e pedrada/de avanço e de avesso/de pensar o impensável/ler o ilisível/signar o insignável/de quebrar a cara/e pedir perdão (...)". De fato, em todas as suas multifacetadas práticas e produções, a genialidade de Pignatari irrompia com a força da natureza. Não foi apenas um artista da poesia e da proesia (prosa poética), mas também tradutor, teórico, crítico, professor, jornalista e publicitário. Seguem aqui alguns comentários fragmentados e, ao mesmo tempo misturados, na tentativa de capturar de modo inseparável as distintas facetas criadoras de Pignatari na composição de um todo integrado em que o poeta não se desprendia do crítico, teórico e das práticas enredadas no cotidiano da vida. A grandeza poética de Pignatari não se expressou apenas na poesia concreta. Ele foi poeta pré-concreto, concreto e pós-concreto. Seus poemas pré-concretos são peças de rara estirpe: "Tosco dizer de coisas fluidas,/Gume de rocha rasga o vento:/Semanas tantas de existir/E de viver um só momento...". (Poema, 1949). "Onde eras a mulher deitada, depois/dos ofícios da penumbra, agora/és um poema..." (O Jogral e a Prostituta Negra, 1949). "O lugar onde eu nasci nasceu-me/num interstício de marfim/ entre a clareza do início/ e a celeuma do fim..." (Eu Poema, 1951).

Alguns de seus poemas concretos, verbivocovisuais - Terra (1956), Life (1957), Organismo (1960) - são imortais. Sua produção pós-concreta é uma sequência de experimentos verbais na constituição de sua incomparável proesia, na qual os grãos densos e condensados da prosa transmutam a narrativa.

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