Carlinhos Müller/AE
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O gênio com cabeça, tronco e membros

Definido pelo colega uruguaio Eduardo Galeano como 'um homem que só tinha cérebro', o escritor argentino Jorge Luis Borges tem sua vida revisitada em novo livro, mas não somente na esfera intelectual - na íntima também

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Inventar e descobrir podem ser sinônimos em latim, mas, para o professor inglês Edwin Williamson, melhor que inventar é adotar a realidade como ponto de partida para descobrir quem foi, afinal, o maior nome da literatura argentina do século 20, o escritor Jorge Luis Borges (1899-1986). Já definido pelo colega uruguaio Eduardo Galeano como um cérebro que andava - sem estômago, coração ou órgão sexual -, o argentino é examinado por Williamson na biografia Borges: Uma Vida, que chega às livrarias na terça. Com Borges, já disse o autor irlandês Colm Tóibín, é perigoso inferir que qualquer material biográfico possa ter inspirado o conteúdo de seus livros. Os livros que ele certamente leu aparecem com mais frequência em seus escritos.

No entanto, Williamson, que conhece bem não só a história do escritor argentino como da América Latina, mostra como a vida de Borges aparece associada aos seus escritos. O pai de Borges, frustrado por seu pouco talento literário, acabou consagrado indiretamente por meio do mais longo texto de ficção escrito pelo filho, um conto chamado El Congreso, que toma emprestada a história contada por Jorge Guillermo Borges em El Caudillo (1921).

Williamson, em entrevista ao Sabático, afirma que a figura do pai teve um impacto sobre o filho talvez até maior do que a mãe, Leonor Acevedo, mulher autoritária, descendente de militares. Ela manteve Borges sob controle - sexual, inclusive - e sob o mesmo teto, até escolher sua mulher. Cego desde o fim dos anos 1950, ele se tornou cada vez mais dependente dela e teria projetado em outras mulheres esse ideal edipiano. A seguir, a entrevista de seu biógrafo.

A herança da mãe de Borges parece ser mais poderosa do que a de seu pai. Por que, se a ambição literária do pai era o que de mais comum havia entre eles?

Borges se sentia unido à mãe por um laço muito forte: admirava-a por sua inteligência e força de caráter, mas tinha consciência de que ela representava um obstáculo em suas próprias relações com as mulheres. Leonor Acevedo era filha única de uma família "criolla", cujo status paterno derivava das gloriosas façanhas do coronel Francisco Suárez nas guerras de independência. Mulher forte, vivaz e inteligente, dominava o filho como a um menino. Dona Leonor era bastante esnobe e parecia não gostar das mulheres de quem "Georgie" se enamorava. Por fim, foi ela quem escolheu a esposa de seu filho quando ele tinha 67 anos, mas o casamento não durou muito. A mãe viveu até os 99 anos. Tento mostrar no livro que o pai teve um impacto sobre o filho ainda maior do que a mãe. Borges devia a ele sua introdução no mundo da filosofia e da literatura, mas a maneira com que isso ocorreu criou uma relação profundamente ambivalente. Foi o pai quem decidiu não mandar o filho ao colégio até os 11 anos, oferecendo em seu lugar sua biblioteca de 10 mil volumes. Desse fato insólito advém muito da "irrealidade" que sentia Borges, porque padecia de um forte sentimento de estar separado das outras pessoas e mesmo do mundo. Por outro lado, graças ao pai e seus amigos boêmios, o jovem Borges cai fascinado pelo "culto da coragem" dos duelistas portenhos. E, cúmulo, foi o próprio pai que promoveu a traumática iniciação sexual do filho com uma prostituta em Genebra - e isso o marcou profundamente, agravando o conflito de seu mundo interior. Mas o que marcou sobretudo a vida de Borges foi a divisão tão aguda entre as personalidades e valores de seus pais. Leonor Acevedo era católica e muito burguesa, enquanto Jorge Guillermo Borges era anarquista e mulherengo. Essa diferença provoca no filho um conflito que caracterizou como uma oposição entre a espada da honra, associada à mãe, e o punhal da transgressão, associado ao pai. Aí está a raiz psicológica do dualismo que se observa em toda a obra de Borges - a espada representando a dignidade patrícia, enquanto o punhal significa tudo o que vem da plebe, o sexual. Sentindo-se atraído igualmente pelos dois polos, seu projeto vital era superar esse conflito.

Há algumas semelhanças entre El Caudillo e El Congreso. O senhor escreve sobre o paralelo entre as obras do pai e do filho no livro. O pai não seria um espelho para o filho?

Apesar de ser mulherengo, o pai de Borges mostra uma veia muito romântica em seus poemas e em sua única novela, El Caudillo. Nela, que analiso em meu livro, Jorge Guillermo Borges representa a paixão erótica num sentido místico, como uma vida dedicada à realização do ser e sua conexão essencial com o espírito do universo. Essa ideia teve uma influência decisiva na temática de Borges filho, especialmente em El Congreso, seu conto mais extenso, calcado, como demonstro, no padrão ideológico fixado pela novela do pai. El Congreso foi uma tentativa de livrar-se da sombra do pai. Ele foi um escritor frustrado e o filho temia precisamente ser um espelho do pai. Pouco antes de morrer, o pai pediu ao filho que reescrevesse e corrigisse El Caudillo e eu argumento que El Congreso revela a intenção de Borges de resolver esse conflito difícil - obedecer ao pai e ao mesmo tempo não ser meramente seu reflexo.

Que tipo de influência literária teve Macedonio Fernández na obra de Borges, especialmente no uso de metáforas? O senhor diria que ele estava mais próximo do cosmopolitismo de Macedonio do que da herança literária de José Hernandez e de seu Martín Fierro?

Borges se ressentia de uma dualidade de fundo: por um lado, temia cair no que chamou a "nadería da personalidade", enquanto do outro se esforçava para definir a essência de sua pessoa. O vaivém entre esses dois polos - entre Whitman e Kafka, como ele mesmo definiu - marcou sua carreira. Macedonio influiu poderosamente em suas ideias sobre a inutilidade do ser, e também lhe ofereceu um modelo de como incorporar essa preocupação em sua escritura. El Gaucho Martín Fierro é outra influência importante. Borges faz alusões a esse poema repetidamente em suas ficções e ensaios por várias razões, mas, no fundo, o que interessa é representar o gaúcho como símbolo da afirmação pessoal, individual. Por isso o duelo com facas é tão central na obra de Borges: é um dos temas que emprega para escapar da "nadería da personalidade".

O senhor enfatiza em seu livro as conturbadas relações de Borges com as mulheres, sugerindo que esses encontros infelizes foram fundamentais para a construção de sua obra. E a amizade de Borges com Bioy Casares e María Kodama: o que eles representaram para sua criação literária?

A duradoura amizade de Borges e Bioy Casares é um fenômeno único: trata-se de uma relação de mais de 50 anos entre um dos maiores escritores do século 20 e um escritor hispano-americano de primeira linha. Com o tempo, Bioy Casares se converteu no companheiro mais assíduo de Borges, como também em coautor de uma série de contos e roteiros cinematográficos. Mas, me contou o próprio Bioy, quando se tratava de obras que ambos consideravam trabalho sério, não havia colaboração nenhuma: não discutiam seus "works in progress" nem mostravam seus manuscritos um ao outro. A amizade, num nível mais profundo, se baseava numa espécie de tácito intercâmbio - Borges era uma constante fonte de inspiração literária para o escritor mais jovem, enquanto Bioy era um conselheiro, suporte moral nas peripécias amorosas que tanto sofrimento lhe causavam. Bioy não se deu conta da crescente influência de María Kodama na vida íntima do amigo, mas se María começou a substituir Bioy como confidente era porque levava uma vantagem decisiva sobre ele: estava capacitada a entrar precisamente nessa vida íntima que era toda a fonte da escritura de Borges; ela, enfim, foi capaz de oferecer amor, experiência que ele tanto ansiava e que uma cadeia de mulheres lhe havia negado.

Borges foi torturado a vida inteira por não ter sido premiado com o Nobel. O que, afinal, representava esse prêmio para ele?

Em 1976 havia rumores de que Borges era um dos candidatos ao Nobel. Isso coincidiu com o golpe de Estado do general Videla contra Isabelita Perón. Borges celebrou esse golpe e também visitou o Chile para receber uma condecoração de Pinochet. Tudo isso provocou um grande escândalo nos meios internacionais. Por causa dele, um dos jurados do Nobel, de ideologia marxista, pressionou para que o prêmio não fosse concedido a Borges. Creio que foi isso que mais lhe incomodou, o fato de ter perdido um prêmio literário por motivos políticos.

As posições políticas de Borges sempre foram complexas. Hoje é difícil acreditar em sua versão para alguns fatos. Por que ele deixou para trás o fato de sua mãe ter sido presa por participar de uma demonstração contra Perón e aceitou ser presidente da Sociedade Argentina de Escritores quando Perón era presidente nos anos 1950? Como explicar seu apoio à ditadura militar de 1976?

Borges não esqueceu a detenção de sua mãe pelos peronistas. Ao contrário, foi isso que o fez assumir a presidência da Sociedade Argentina de Escritores. A coragem de sua mãe o inspirou a fazer frente a Perón de maneira pública. A meu ver, o que explica sua oposição a Perón é sua antipatia ao fascismo, ao nazismo e ao nacionalismo de direita na Argentina. Borges sempre se opôs ao que considerava o caudilhismo endêmico na política argentina. Creio que não compreendeu o alcance político da revolução social que Perón desencadeou nos anos 1950. Empenhara-se em considerar Perón simplesmente como um ditador. Creio que o golpe militar de Videla em 1976 o encheu de alegria porque o viu como outra instância da Revolução Libertadora que havia derrubado Perón em 1955 - e que não acabou com o peronismo. Mostro que esse apoio a Videla não durou mais de um ano: os militares decepcionaram Borges progressivamente por seu nacionalismo agressivo, sua incompetência econômica e pela barbárie na repressão à guerrilha.

O túmulo de Borges na Suíça foi claramente projetado por María Kodama com referências e imagens da cultura viking. Por quê?

Esses temas se referem a um conto chamado Ulrica, escrito após uma viagem à Islândia, em 1971, na qual se declarou a María Kodama. Trata de um velho professor sul-americano que conhece uma garota norueguesa que lhe oferece uma noite de amor. Esse "milagre" o faz lembrar de uma outra garota que lhe negara amor na juventude. Há aí uma referência autobiográfica muito precisa - a paixão pela poeta Norah Lange, sua protegida nos anos 1920. Norah foi sua musa e a ela se deve esse fascínio por temas escandinavos. No fim, ela se apaixonou pelo poeta Oliverio Girondo, o mais odiado rival de Borges dentro da vanguarda argentina, e essa rejeição o desorientou por completo. Pouco tempo depois, ele perdeu sua voz poética. O tema de Ulrica é a libertação da memória de um amor frustrado. O velho professor aceita o amor que outra garota lhe oferece por uma noite.

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