O gênio além dos genes

Entrevista[br][br]Baseando-se em novos estudos de genética, David Shenk defende em livro a ideia de que a maioria das pessoas tem mais em comum com Mozart e Michael Jordan do que elas costumam imaginar

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Otítulo de um capítulo do novo livro de David Shenk, Como Melhorar Nossos Genes, poderia soar como o tema de um segmento de talk-show vespertino, o gênero americano de TV com seu inevitável DNA de autoajuda. Mas The Genius In All of Us (O Gênio em Todos Nós), que a Editora Zahar lança no Brasil em outubro, não tem nenhum parentesco genético com o charlatanismo que passa por ciência. Shenk, de 43 anos, autor, entre outros, de O Jogo Imortal, A Ciência e o Cérebro Humano (Zahar, 2007) é um jornalista premiado - escreve no site da revista Atlantic Monthly - e palestrante requisitado sobre temas como cérebro, memória e inteligência. O subtítulo de O Gênio em Todos Nós é: Porque Tudo o Que lhe Contaram Sobre Genética, Talento e Q.I. Está Errado. Shenk diz que as descobertas científicas da última década aposentaram de vez a noção de que somos presenteados com talentos natos. O DNA não é uma certidão de nascimento que define e limita nossas conquistas. O novo paradigma científico, segundo ele, "mostra quanto é falida a frase natureza versus criação".

Entre as boas notícias anunciadas na linguagem transparente que não exige do leitor diploma em neurociência, Shenk explica que, sim, podemos melhorar os nossos genes. Mas não se trata da quimera new age da realização ilimitada e sim da constatação, baseada na Epigenética, de que a maioria de nós tem mais em comum com Mozart ou Michael Jordan do que podíamos imaginar. Nesta entrevista exclusiva ao Estado, David Shenk explica porque nós temos uma capacidade "genial" e ainda não explorada de aumentar nosso potencial. A má notícia: sem trabalho duro e aceitação do fracasso, não há gênio que se revele.

O seu livro explica que o DNA não é o começo e o fim da conversa. Como a epigenética vai mudar nossa percepção sobre a importância dos genes?

É uma maneira toda nova de entender os genes. Nas últimas décadas a ciência fez avanços importantes na compreensão das nuances do funcionamento dos genes. Mas o público parece ter estacionado no século 19. O público supõe que os genes são como plantas arquitetônicas que contêm informação definitiva sobre nossas características - um gene para a cor dos olhos, outro para o ouvido musical e por aí vai. Mas, de fato, os genes são como controles eletrônicos ligados e desligados pelo ambiente à nossa volta. O DNA vive em interação constante com o meio ambiente, desde o momento da concepção até a morte. Os genes são um processo, o talento é um processo e a inteligência também. São todos parte do processo de desenvolvimento humano que podemos controlar em parte.

A epigenética lança um novo olhar sobre a teoria evolucionária de Charles Darwin?

A epigenética amplia a nossa percepção da seleção natural mas de forma alguma contradiz Darwin. Quando a poeira assentar, espero que tenhamos uma ideia ainda mais interessante sobre a evolução e o desenvolvimento do talento humano.

Então, pensar em termos de natureza X criação não faz mais sentido.

Há uma noção popular sobre essa dualidade, segundo a qual a natureza viria primeiro e depois a criação. Quando você examina os genes sob esta nova luz, não se pode separar o papel da natureza. Ela interage com a criação. Pessoas idênticas do ponto de vista genético terão habilidades e talentos muito distintos se expostas a ambientes diversos.

Qual a sua opinião sobre estudos que atribuem aos genes o controle de mais de 50% das características da personalidade?

Os estudos são mal interpretados. Eles fazem uma análise estatística de gêmeos e, de maneira arbitrária, usam números para estabelecer uma distribuição que, a meu ver, não pode ocorrer do ponto de vista biológico. Você pode sempre apurar uma estatística mas, neste caso, não tem significado real. Os estudos são úteis para os cientistas porque agora sabemos que os genes têm influência sobre tudo. Mas dizer que 60% da nossa inteligência vem dos genes e 40% vem do meio ambiente é simplesmente bobagem, não faz sentido no contexto da biologia.

Como a sua pesquisa reavalia a importância do papel dos pais no desempenho da criança?

Há tanto que se passa nos primeiros anos de vida, e não digo que a influência dos pais se limite a esse período, que precisamos entender o nosso efeito sobre os filhos até antes do nascimento. Ainda no útero, há fatores ambientais que escolhemos. Como eles são expostos à música, ao barulho excessivo, à poluição. Depois, as palavras que usamos quando falamos com as crianças. O tamanho do vocabulário, ficou provado, faz diferença. Ler para as crianças é muito importante, bem antes de elas serem alfabetizadas. Nós não percebemos o efeito de tudo isso imediatamente. Mas os cérebros estão se formando cedo e precisamos considerar melhor o papel dos pais.

O que dizer da caricatura dos "pais e mães de Park Slope", o bairro de classe média-alta do Brooklyn, onde criar filhos parece exigir um doutorado?

Eu sou um dos pais de Park Slope!

Desculpe...

Veja, o que este livro não quer fazer é encorajar os pais a superestimular crianças e ocupá-las mais do que é saudável. Os pais devem esperar muito dos filhos e os expor a todo tipo de recurso. Isto é muito diferente de ficar maluco estimulando a criança sem parar, promover desempenho acadêmico cedo demais, o que considero um erro porque não se deve tomar o tempo para brincar e ser criativo. Podemos ser bons pais sem transformar nossos filhos em monstrinhos do superdesempenho.

O seu livro vai ao encontro a um traço cultural da fundação dos Estados Unidos, o otimismo sobre a possibilidade de mudar.

Concordo, mas há correntes que se cruzam aqui. Há esta cultura que incentiva a superação da adversidade, o "self made man" e, num aspecto, isto é muito positivo. Por outro lado, falamos nos talentos individuais como coisas natas, as pessoas são inteligentes ou não. Fomos convencidos de que o Q.I. é esta medida que nos define e limita. E nada disso é verdade. Nós podemos mudar o nosso Q. I., mudar a inteligência e devemos ter altas expectativas de todos os indivíduos.

Como aplicar nossos recursos evolucionários para explorar nosso potencial?

A verdade sobre a biologia dos seres humanos é que somos criados para nos adaptar, somos criados para responder às exigências do ambiente. Isso não quer dizer que todo mundo pode atingir todo o potencial, há todo tipo de limitação. Nós podemos sonhar alto e não chegar lá e ainda assim fazer coisas incríveis. Mas o fato é que no cérebro e também - agora ficou claro - nos genes, há um processo e estamos reagindo ao ambiente.

O seu argumento nos leva a concluir que a ciência está assumindo uma perspectiva mais democrática sobre o potencial humano?

Acho que a Ciência agora começa a mostrar que há um potencial extraordinário que não havíamos reconhecido. Não sabemos ainda o que é, mas sabemos que não podemos nem de longe atingir nosso potencial até investir mais recursos e elevarmos as expectativas do ser humano. E esta é a mudança cultural que devemos promover.

Este novo conhecimento pode afetar a maneira como a sociedade encara a mente criminosa e promover a reabilitação?

A mente criminosa é uma mente formada. As pessoas não nascem criminosas, não há genes que conduzem ao crime tanto quanto não há pessoas que nascem para não ser criminosas. Os criminosos se formam. Acho que vamos levar gerações para compreender melhor, mas o certo é que não podemos mais supor que alguém nasce para ser qualquer coisa. Devemos esperar o melhor de qualquer ser humano e fazer o possível para maximizar nossos recursos. Quanto à reabilitação, há uma diferença entre dizer que as pessoas podem mudar e avaliar o potencial para mudança porque, uma vez que você é formado e escolheu um caminho, a mudança se torna muito mais difícil. Eu acredito em reabilitação mas não vamos subestimar os obstáculos.

Como você incorpora as ideias da epigenética à sua rotina de trabalho?

Eu trabalho duro, sou severo comigo mesmo, eu me acostumo com a ideia de que, quando escrevo a primeira, segunda ou terceira versão não vai ser muito boa. Leio com uma lente crítica e sem paixão e penso logo em como melhorar o texto. Geralmente, todas as pessoas que conquistam algo importante, e deixo claro que não me incluo entre elas, aprenderam a fracassar e aceitam o fracasso. O fracasso é parte integral do processo, você encara o que não está dando certo e faz progressos. E esta é a diferença entre os que conquistam muito e os medíocres. Os medíocres têm tanto horror ao fracasso que, como tentam evitá-lo, não se obrigam a fazer o esforço para ir mais longe.

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