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O gato que nos esperou para morrer

Chico foi um daqueles gatos de rua, miúdos, rajados, espertos. Viveu 18 anos conosco. Fui ao Google e descobri que os 18 anos do Chico equivalem a 88 anos

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2019 | 02h00

Tom, meu gato preto e branco, anda inquieto. O nome veio da homenagem que Rita, minha filha, quis fazer a Tom Jobim, afinal, ela é cantora. Tom, gato de rua, veio para substituir Marieta, que morreu há dois anos. Perceberam que Marieta foi outra homenagem àquela que na vida real é Severo. Agora, devo esclarecer que Tom anda esquisito desde que Chico morreu. Outra homenagem, desta vez ao Buarque.

Chico foi um daqueles gatos de rua, miúdos, rajados, espertos. Viveu 18 anos conosco. Até hoje não consigo traduzir a idade dos gatos em índices humanos. Fiz o que todo jovem faz. Em lugar de ligar para a Emilia, a veterinária que cuida de meus gatos há décadas, fui ao Google e descobri que os 18 anos do Chico equivalem a 88 anos. Com essa idade meu pai morreu e ainda estava lúcido e querendo conhecer Roma, o que nunca aconteceu, culpa que carrego. Como somos cheios de culpas.

Meus três gatos foram diferentes no comportamento. Chico era tranquilo, vivia sempre próximo, gostava de se enfiar debaixo das cobertas. Nos últimos anos, eu me sentava para ver televisão à noite, ele pulava em meu colo, ficava uns dez minutos me encarando fixamente. Jamais decifrei esse olhar. Depois, dava duas ou três voltas em torno dele, até encontrar uma posição e se aquietar e dormir. Tinha o costume de nos esperar, Marcia e eu, na porta, a qualquer hora que chegássemos. Como advinham que aquela chamada de elevador é a que nos vai trazer? 

Por muito anos, ele me seguiu até a mesa de trabalho, saltava e sentava-se no teclado, depois se instalava na impressora e ali dormia, me olhando. Quando eu estava com algum problema na escrita, uma trava, uma dúvida, a busca de uma palavra, ele abria os olhos e assim ficava, até eu voltar a digitar.

Quando um desses grossos dicionários (ainda uso, folheio as páginas em busca de palavras) do Aurélio, do Houaiss ou o Michaelis ficavam sobre a mesa, ele corria e deitava-se sobre eles. Parecia entender que aquele era um de meus instrumentos de trabalho, que ali estava a fonte maior. Muitas vezes, abria o dicionário, olhava uma palavra qualquer e repetia para ele, fragor, manga, recinto, picardia. Ele jamais aprendeu, e olhem que foram muitas palavras.

Ele miava, dava alguns passos, olhava para trás, miava e na terceira vez eu sabia que queria água, ou desses biscoitinhos que têm feito a fortuna dos donos de pet shops. O ser humano neste século 21 adora celular, WhatsApp e catar cocô de cachorro na rua. A discussão é eterna, mas gatos não pedem que você os leve a passear, a caminhar na rua, e a levá-los para fazer xixi. Gatos vivem na deles. O mundo dos animais está polarizado também, dividido em nós e eles, cães, gatos.

Chico aprendeu a beber água na torneira. Ter achado lindo ele subir na pia, um dia, e beber água foi fatal, ele se viciou, mais do que alguém que fuma crack uma vez e nunca mais larga. Amigos se cansaram de receber posts do Chico bebendo água na torneira.

Apesar de tantos anos junto aos gatos, nunca decifrei o rabo e seus variados movimentos, por que o rabo engrossa de repente ou por que, em certos momentos, só agita a pontinha. Para que servem os bigodes? E é verdade que o ronronar dele significa que ele está feliz ou preocupado conosco? Verdade que ronronar acalma, alivia a depressão? Assim, será melhor ter dois gatos do que viver tomando Prozac e Rivotril?

Chico foi definhando mansamente, emagrecendo, os pelos mais duros, perdeu a agilidade de saltar. Um dia, caiu de costas ao querer subir para a pia. Jamais tinha visto um gato cair de costas, é de suas qualidades mais belas. Três semanas atrás fizemos uma rápida viagem. Chico já estava imóvel, inerte. Ao voltarmos, ele nos olhou, deu um miado fraquíssimo. Colocamos sobre um cobertor, fizemos uma carícia, ele parou de respirar. Minha filha disse que ele piorou demais desde que nos fomos. Parece que nos esperou para morrer.

Descobrimos em seguida um negócio curioso, o das cremações de animais. Telefonamos para vários e nos pediam de 500 a 1.500 reais para buscar o gato, cremá-lo e devolver as cinzas em uma caixinha “artisticamente” reproduzida. E nos atendiam com “meus pêsames mais profundos pela perda de seu adorado bichinho”. Eu, hein? Descobrimos o serviço oficial da Prefeitura, no Bom Retiro, onde os funcionários são gentilíssimos e cordiais. Gratuito. Ao menos algo funciona.

Desde que Chico morreu, Tom anda estranho. Fuça todos os cantos. Fica parado olhando para a escada, ou para o corredor, como que à espera do companheiro. Pula no beiral da janela, contempla a rua. De noite, fica do lado da cama e nos acorda, com miados agoniados. Quando come biscoitinho, levanta a cabeça a todo momento, olhando para a vasilha que era do Chico e deixamos ali, por enquanto. Tom sente a solidão e deve sentir falta das vezes em que infernizava o pacato e idoso Chico que, todavia, velho e experiente, dava uma virada ágil de corpo, no estilo de Jackie Chan, e o companheiro rolava surpreso.

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PS: Solidão No Fundo da Agulha, show com Rita Gullo e eu, voltou ao Teatro Eva Herz, Livraria Cultura, Paulista, todos os sábados, às 17 horas, até o final de agosto.

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