Dusan Smetana/Unsplash.com
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Gilberto Amendola
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O galo de Pinheiros

No meio da pandemia inventamos um galo. Ele serve para nos tirar da cama. Ele nos propõe a despertar

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2020 | 03h00

Todo dia, às 6h da manhã, um galo canta nos arredores da Rua Joaquim Antunes, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. 

Como se a vida já não estivesse suficientemente estranha, um galo canta por entre os prédios de uma vizinhança que nada tem de rural.

Como se a vida não estivesse suficientemente estranha, um galo pontual limpa a garganta às 05:59, empertiga-se e solta sua voz de contralto às seis da matina (isso é polêmico, muitos acreditam tratar-se de um soprano). 

Como se a vida não estivesse suficientemente estranha, um galo trombeteia zombeteiro como se mandasse no asfalto. Ou como se, impaciente, chutasse nossos traseiros sonâmbulos. 

Como se a vida não estivesse suficientemente estranha, um galo antecede a britadeira, o caminhão de lixo, o homem da pamonha, a máquina de lavar, o cão, os gritos e pedidos de socorro.

O galo é o Big Bang. 

O fato é que nunca ninguém viu o dito cujo em pele ou osso. Insones e porteiros de prédio já fizeram um pacto para descobrir seu endereço. Por ora, nem um pio, nem um grão de informação confiável sobre o artista galináceo. 

Quando ele teria se mudado para o nosso bairro? Quem é o seu dono? Será um galo de briga? Moramos perto de uma rinha? Ou ele teria sido atraído pela gourmetização desenfreada dos bolovos?

Há quem diga se tratar de um disco ou uma fita cassete –  acionada por um morador sacana. Outros chegam ao cúmulo de sugerir um galo fantasma, um galo espiritual que ainda não conseguiu desapegar deste plano terrestre. 

Meu palpite é: o galo é a nossa consciência.

No meio da pandemia inventamos um galo. Ele serve para nos tirar da cama. Ele nos propõe a despertar. Ele quer a gente acordado. Ele quer nossa cara amassada na frente do espelho do banheiro. 

O galo não quer que a gente sonhe. O galo quer que a gente entenda. 

Quando você estiver lendo essa coluna já estaremos na casa dos 100 mil mortos pela covid-19.

O galo vai continuar cantando.

E você?

Vai virar para o outro lado e continuar dormindo? 

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