O futuro preservado do livro

Para Jean-Claude Carrière e Umberto Eco, a tradição resistirá à tecnologia

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2010 | 00h00

O enredo prometia uma boa história policial - o e-book vai acabar com o livro tradicional? -, mas, diante de dois bibliófilos de carteirinha como o semioticista, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco e o escritor e roteirista francês Jean-Claude Carrière, não há mistério porque não haverá assassinato. A conclusão surgiu de uma série de encontros entre os dois que resultou no livro Não Contem com o Fim do Livro, recentemente lançado pela editora Record.

"Não pretendemos fazer uma obra didática, mas um passeio por duas vidas que se dedicaram ao livro", contou Carrière ao Estado, em entrevista por telefone de Paris realizada em janeiro. "É um livro de reflexão, que mostra não apenas nossas manias, mas também o saber visto com alegria."

As conversas aconteceram à beira de uma piscina, regadas a boa bebida. Mais que a comunhão de um mesmo pensamento (o crescimento nas vendas dos livros eletrônicos - nos Estados Unidos, as cifras já aumentaram em mais de 200% - não terminará com o objeto em papel, que continuará figurando nos hábitos dos leitores), o encontro permitiu aos dois intelectuais a elaboração de curiosos pensamentos.

Eco, por exemplo, compara a invenção do livro à da roda, ou seja, apesar das variações surgidas com o desenvolvimento tecnológico, a base sempre será a mesma. "O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos", comentou ele, em entrevista realizada ao Estado, em Milão, em março. "Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos?"

Outro detalhe, lembrado por Carrière em Não Contem com o Fim do Livro, está na praticidade - ele se recorda do blecaute acontecido em Nova York, em julho de 2006: se o incidente tivesse se prolongado, tudo estaria irremediavelmente perdido, sem eletricidade. "Em contrapartida, ainda poderíamos ler livros, durante o dia, ou à noite à luz de uma vela, se toda herança audiovisual estivesse perdida."

Também a vastidão de conhecimento oferecida pela internet foi questionada pelos dois estudiosos. O fato de agregar um número que parece infinito de obras é elogiável, acredita Eco. O problema surge na capacidade de discernimento de quem está acessando a rede mundial. "Lá, encontramos tanto a Bíblia como o Minha Luta, de Adolf Hitler. E o que fazer se uma obra não recomendável surgir na tela de alguém despreparado intelectualmente?", questiona. "Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos."

A troca de conhecimento também preocupa Carrière. "Nos mundos que chamamos primitivos, que não mudam, os velhos detêm o poder, uma vez que são eles que transmitem os conhecimentos a seus filhos", diz ele, no livro. "Quando o mundo está em revolução permanente, são os filhos que ensinam eletrônica aos pais. E seus filhos, quem ensinará a eles?"

Memória. O assunto remete a outro, o da preservação da memória, entendida tanto na forma de uma biblioteca como na qualidade humana de reter conhecimento. Eco lembra que a memória tem função seletiva, preservando o que julgamos como essencial e descartando o que poderia atulhar inutilmente nossos cérebros. "Os arquivos, as bibliotecas são esses frigoríficos nos quais armazenamos a memória a fim de que o espaço cultural não fique abarrotado com toda essa quinquilharia sem com isso renunciar a ela", raciocina. "Na internet, um guri que faça uma pesquisa para seu dever de casa pode ter a sensação de que César é tão importante quanto Calpúrnia, sua última esposa."

Não bastasse isso, há ainda o prazer do colecionismo. "Cada livro traz um personagem só para mim. Há obras que cruzam os séculos e outras não. Isso depende muito do gosto pessoal. Por isso que o livro tradicional não vai desaparecer", comenta Carrière.

TRECHO

Tenho livros que adquiriram certo valor para mim, menos por causa de seu contéudo ou da raridade...

...da edição do que em função dos vestígios nele deixados por um desconhecido, sublinhando o texto às vezes com diferentes cores, escrevendo notas na margem. Tenho, por exemplo, um velho Paracelso cujas páginas lembram um rendado, as intervenções do leitor parecendo bordadas com o texto impresso.

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