O futuro é virtual, o problema é real

Livro digital inspira debate sobre autoria e hábito de leitura entre Peter Burke, Robert Darnton e John Makinson

Antonio Gonçalves Filho Enviado Especial Paraty, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

Dois historiadores da mesma geração, o inglês Peter Bur- ke, de 73 anos, e o americano Robert Darnton, de 71 anos, discutiram anteontem sobre o futuro do livro na era digital, antes que o último participasse, ontem, pela manhã, de um debate com um historiador mais novo, o inglês John Makinson, de 54 anos, CEO da Penguin Books. O diagnóstico não foi nada animador para os leitores de livros físicos. Antes que todas as traças do planeta se unam para destruir os livros de papel que restam, o leitor do futuro já estará se comportando como naqueles antigos filmes de ficção onde ninguém mais lia, apenas consultava telas. Para Darnton, essa será uma imagem real e inevitável, o que vai trazer não só uma mudança na relação entre leitor e autor como a diluição do mesmo num oceano de anônimos.

Não que Darnton considere de todo negativa essa diluição. A autoria, como lembrou no debate, é uma questão burguesa, que surge paradoxalmente com a censura aos livros na república das letras do Iluminismo francês. Era, então, um mundo sem direitos autorais, em que o privilégio de publicar não pertencia ao autor de um texto, mas aos reis, que decidiam o que o cidadão das ruas podia ou não ler. Um livro não recomendado circulava, então, como uma obra pirateada, levando autor, editor e vendedor às galeras, o que equivalia à sonegação total de direitos.

Os americanos querem fazer o mesmo no século 21. As empresas internéticas pretendem que a concessão dos direitos autorais seja eterna para não pagar royalties a quem eles pertencem, lembra Darnton, que sugere com entusiasmo a formação de um movimento contra os lobistas da sonegação.

Responsável pelos 14 milhões de livros da valiosa Biblioteca da Universidade Harvard, Darnton revelou que não usa o Kindle. Tampouco Peter Burke conhece alguém que tenha lido Guerra e Paz em sua versão digital. Na biblioteca de Babel online, Tolstoi perde para Dan Brown e quem vai acabar perdendo com isso é o leitor do futuro. Burke, reforçando o pessimismo de Darnton, anteviu esse futuro como um tempo em que as crianças que aprenderam a ler na tela do computador vão pular de uma página para outra como quem ultrapassa uma barreira, fazendo da literatura uma corrida de obstáculos.

Burke, em outro exercício de futurologia, acha que o papel do livro vai diminuir em comparação com outros meios de comunicação. Sobre o conhecimento enciclopédico digital, lamenta que leitores se entreguem cegamente a ele, embora considere que os equívocos da Wikipédia possam despertar o espírito crítico dos usuários, contribuindo para o advento de um novo gênero que substitua a enciclopédia surgida no Iluminismo. Em todo o caso, tanto Burke como Darnton lembraram que, no fim do século 15, quando o livro apareceu, também ocorreu um fenômeno parecido, desorganizando o mundo da escrita, depois reorganizado.

Na manhã de ontem, a discussão tomou outro rumo. Darnton, que acompanhou a digitalização do acervo da Biblioteca de Harvard pelo Google, considera, de fato, que essa transferência para o mundo virtual se compara à passagem dos manuscritos para o texto impresso no fim do século 15. Com uma diferença fundamental: o texto virtual poderá eclipsar novamente a questão da autoria. O historiador lembra que, antes do advento dos direitos autorais, os livros eram escritos na França pré-revolucionária como num processo de bricolage, em que cada autor aproveitava do outro o que tinha de melhor, apropriando-se de trechos inteiros sem o mínimo sentimento de culpa. Num mundo que vê 1 milhão de novo livros surgindo a cada ano, pode-se imaginar o que essa collage vai significar no ciberespaço. O livro impresso, lembra Darnton, pode não desaparecer, mas o jeito de ver o mundo sim. Também por isso, Darnton discordou da intenção dos dirigentes do Google de cobrar pelas cópias digitais do acervo.

Menos apocalítptico e mais integrado que Darnton, Mackinson acha que o declínio das vendas do livro físico é inevitável e que o armazenamento digital da informação poderá trazer benefícios para o leitor do futuro, acenando com a interação entre meios eletrônicos como uma nova forma de ver e ler o livro. Darnton concorda com ele nesse sentido, lembrando que os livros digitais de história já remetem o leitor para documentários em vídeo e sons. Há, evidentemente, uma preocupação: a de que todo esse acervo desapareça por força da dinâmica do mercado. Softwares envelhecem rápido e empresas vão à falência com muita facilidade. A conservação de um acervo digital é ainda precária. Para quem o leitor vai reclamar se um livro for adulterado ou sair do ar misteriosamente do seu e-reader? Já se fala em livro por assinatura, como os canais de TV, mas Mackinson duvida que venha a ser o sistema dominante. O futuro é virtual, mas o problema é real.D

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