Esta é a primeira vez que Somewhat Elevated é montado por uma companhia latino-americana. Como se sente a respeito?

Entrevista com

07 de setembro de 2012 | 03h07

Estou muito feliz. Na verdade, acho curioso que ninguém no continente tivesse montado até hoje porque essa é justamente uma coreografia sobre o ritmo. E ritmo, os latinos têm de sobra.

Por falar nisso, o que acha que os brasileiros têm a contribuir, e acrescentar, à sua obra?

Há grandes dançarinos em toda parte, que sabem o vocabulário, e a gramática, da dança. Mas, no caso dos brasileiros, a contribuição é significativa, pois, além da técnica, têm ritmo. Levam a música no corpo. Na Europa, não há o mesmo senso de cadência que países com herança cultural africana, como o Brasil, têm. O mix entre o ritmo natural que vocês carregam no corpo com o domínio do bale clássico é automático. Não é racional. É natural. Presumo que a apresentação aí vai ser ótima por tudo isso.

Você conversou com os bailarinos da SPCD?

Não, porque o tempo foi curto e tenho meu trabalho com a minha companhia. Conversei com a diretora. Mas minha representante adorou os brasileiros.

Você já esteve no Brasil?

Só no Rio, há cerca de dez anos, trabalhando com Richard Cragun. É a única experiência que tive. Foi incrível. Trabalhei em um programa com estudantes em favelas. Foi uma grande experiência. Pude viver e comprovar isso que falo da relação intrínseca de vocês com o ritmo.

Estaria na contaminação de culturas e ritmos, como ocorre no Brasil, o futuro da dança?

Impossível prever. Há tanta coisa acontecendo. A contaminação é um futuro. É assim na natureza. Evoluir é misturar, cruzar, contaminar. Por exemplo, os europeus não querem ver clássicos copiados, mas algo que agregue. Vemos isso quando assistimos a brasileiros dançando. Isso também ocorre com a música clássica. Quem sabe, de fato, como uma sinfonia deve ser tocada ou como uma coreografia dançada?

Você vê esta contaminação mais marcada em alguma vertente da dança contemporânea?

O hip hop é o melhor exemplo. O futuro do balé deveria passar por este movimento incrível.

Por que? A força do hip hop está no fato de ser fonte de contato entre a dança e a cultura das ruas das grandes cidades?

Sim. É rico e dinâmico, conectado com tanta gente em todo o mundo. Exige técnica, mas dá espaço para improvisação. É espontâneo, mas precisa de organização, musicalidade, sensibilidade. E tem conteúdo e swing.

Você tem experiência na dança de rua ou a dance club, não?

Sim. Dancei muito club dance, em festas, salões etc, antes de ser bailarino. Esta contaminação foi crucial para minha formação, principalmente quando fui estudar o clássico. No Rio, na favela, me disseram: "A gente gosta de você. Você tem balanço". Foi uma das melhores coisa que já ouvi. Porque o ritmo é talvez a forma mais internacional de se comunicar. / F.G

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